Drama de família expõe impunidade
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sábado, 14 de abril de 2001
Lúcio Flávio Moura De Londrina 
Como poucas, a família Nascimento sabe que o Brasil é um País que não consegue derrotar a violência urbana e a impunidade. Neste domingo de Páscoa, quando a casa de classe média da Rua da Harmonia, no Conjunto Rui Virmond Carnascialli, na zona norte de Londrina, estiver cheia de amigos e parentes, os pensamentos do sintecador Ogená Joaquim do Nascimento, 58 anos, e da aposentada Olídia Marques do Nascimento, 61 anos, estarão longe do sabor doce dos ovos de chocolate.
A memória do casal está quase toda preenchida com a lembrança dos três filhos assassinados e pela revolta de não saber quem foram os responsáveis por esta tragédia a conta-gotas. Dizimaram minha família. Tudo se acabou, desabafa Ogená, conhecido no bairro por Mãozinha. A mãe sofre de depressão há mais de uma década, prefere não falar, mas seu semblante dá a dimensão do quanto dói sepultar três filhos saudáveis e considerados trabalhadores.
Ogena e Olídia são pais do universitário Omar Joaquim do Nascimento, assassinado aos 26 anos na noite da última terça-feira, na área central de Londrina. Ele levou um tiro nas costas quando estava namorando com a desempregada Elissandra Ferreira da Silva, 18 anos, em uma picape na Rua Mossoró, em frente à loja de seu pai, onde trabalhava.
Ele era um bom moço. Trabalhador, estudioso. Não gostava de festas. Adorava mulher, motos e carros. Presenteei ele com duas motos, mas preferia que ele circulasse com a picape, conta o pai.
Minha vida não faz mais sentido, mas até meu último dia de vida vou lutar para prender quem matou meu filho caçula, desabafa. Alguém na casa cheia tenta aliviar a amargura de Mãozinha, lembrando dos seus quatro netos (três deles filho de Edilson, o segundo filho morto), mas ele parece ficar ainda mais triste quando fita os olhos do pequeno Omar, de três anos, que está olhando a fotografia do pai.
Mãozinha transforma amargura em inconformismo quando reflete sobre o destino. Eu não sei o que é isso. Não sei. Por quê? O que pode ser? Inconformismo transformado em revolta. A polícia é mal preparada e desinteressada. Se mandasse em alguma coisa, implantaria a pena de morte e o trabalho forçado para os presos. Tem na Bíblia: olho por olho, dente por dente.
Ele se considera religioso, mas vai mais ao cemitério do que à missa.Tenho fé, mas é tão difícil. Sempre que posso estou lá, diz, referindo-se às constantes visitas à sepultura dos filhos, no Cemitério São Pedro (área central).
O primeiro capítulo da tragédia familiar em novembro de 1988 foi a morte de Lourenço José do Nascimento, então com 21 anos. Lourenço foi metralhado na área central de São Bernardo do Campo (Grande São Paulo), onde trabalhava como vigia, por um grupo armado que nem chegou a sair do carro. Tinha amigos policiais e gostava de acompanhar as blitze. A família acredita em vingança.
Um ano e nove meses depois, Edilson Joaquim do Nascimento, foi assassinado aos 25 anos em Campo Grande (MS). Ele era policial militar e vendeu uma arma a um conhecido. O pagamento foi pago com cheque frio. Ao tentar recuperar a arma, Edilson foi baleado pela arma que havia vendido. O suspeito fugiu para o interior do Estado e nunca foi localizado pela polícia.


