Dr. James, o médico que tem de tudo um pouco
O dia em que a população de Ibiporã (14 quilômetros a leste de Londrina) encontrar o médico James Alberto de Castro Motta passeando pela cidade no volante de um carro, certamente vai achar que tem alguma coisa errada com ele. James Motta, 42 anos, foge totalmente do perfil considerado normal de seus companheiros de profissão. Ele raramente usa roupa branca, não sabe dirigir, faz parte de um grupo de teatro de nome bastante diferente dos tradicionais - Teatro da Cadela Manca - e percorre as ruas da cidade todos os fins de tarde, faça sol ou chuva, usando um roller.
Mas não é só isso que já causou estranheza aos moradores de Ibiporã. Hoje eles estão acostumados às manias do médico mas não deixam de dar uma olhada de lado quando ele aparece descalço nos bancos ou em lojas. Ele também consegue parar uma partida de futebol entre as crianças quando chega ao campo munido de seu bumerangue, lembrança de uma temporada passada na Inglaterra.
James Motta se formou em Medicina em 87, pela Universidade Estadual de Londrina. Também se formou em Computação Gráfica, pela Universidade Norte do Paraná (Unopar). Quando fazia o internato de medicina começou a definir seu futuro e optou por trabalhar com saúde pública. Em seguida fez especialização na área e hoje trabalha em postos de saúde em Ibiporã e Londrina, o que o fez ficar bastante conhecido entre a população. Na saúde pública agimos na prevenção das doenças. É claro que também atuamos na área curativa, mas prevenir é nossa prioridade, comenta.
Fazer teatro e ainda ter tempo para andar de roller não significa menos tempo de dedicação à medicina. Estou sempre fazendo cursos de reciclagem e um possível doutorado não está fora de meus planos. O teatro surgiu na vida de James Motta logo após concluir a faculdade. Ele foi chamado para atuar na peça Sonho de uma Noite de Velório, dirigida pelo artista plástico Henrique Aragão e montada para a inauguração do teatro Padre José Zanelli.
Depois da primeira experiência, o teatro ficou um pouco esquecido em sua vida, mas não por muito tempo. Há dois anos ele foi convidado para integrar o grupo Cadela Manca e não parou mais. Também desta atividade extra-profissional, o médico tira lições para trabalhar com seus pacientes.
O teatro funciona na minha vida como uma terapia. É uma forma de relaxar e me ajudou muito no relacionamento com as pessoas. Eu era muito tímido, tinha muita dificuldade de me relacionar. Hoje lido muito melhor com meus pacientes. Na sua opinião, todo médico deveria manter uma atividade fora de sua área de atuação para sentir como funcionam as outras formas de conhecimento.
Encontrar pacientes no teatro, após uma apresentação já virou rotina na vida de James. Mas ele ainda não sabe qual a reação deles. Aparentemente, eles acham legal, me cumprimentam. Mas o que se passa lá no fundo eu não sei. Ninguém nunca me falou. Já nas ruas, o encontro é mais frequente e o médico chama a atenção por usar, além do roller, quase todos os equipamentos de segurança.
Como diz o ditado popular casa de ferreiro, espeto de pau, o médico ainda não comprou o capacete. Mas não aconselha ninguém a fazer como ele. Só falta isso, mas logo vou comprar. Quem quer patinar tem que usar todos os equipamentos para evitar lesões ocasionadas por uma queda. Lesão no joelho, por exemplo, pode ser muito grave.
O roller não é usado apenas nos momentos de lazer. De vez em quando ele aparece para trabalhar no Centro de Saúde de Ibiporã, a cinco quadras da sua casa, patinando. O que não assusta seus pacientes. Já me consultei com ele e se precisar volto de novo. Ele é um bom médico e isso é que conta, observa a dona de casa Angélica Bigatti, 23 anos. Ela acha a mania de James um tanto diferente dos outros, mas não se incomoda.
A mãe de Angélica, Tereza Bigatti, se diverte com o hobby do médico. Até quando está chovendo ele patina, segurando um guarda-chuva e com um walkman no ouvido. A professora Adriana Ponce, 26 anos, diz que sempre vê James patinando pelas ruas e achava normal. Mas o dia que soube que ele era médico, a coisa ficou diferente.
Aí estranhei um pouco, não só pelo roller. Mas ele também anda descalço e até já se vestiu com aquelas roupas de São Francisco. James explica que as roupas eram, na verdade, um poncho gaúcho. Andar descalço também faz parte da rotina dele. É para descarregar a energia.
Todo mundo tem que fazer um exercício. Acho normal ele andar de roller. Hoje em dia ninguém estranha mais nada, avalia a aposentada Ana Joaquina da Conceição. A patinação é, atualmente, o único exercício físico na vida do médico, ao qual dedica de uma a uma hora e meia por dia.
Para Londrina, James só vem de ônibus, embora a família tenha um carro na garagem. Tenho um pouco de receio de dirigir. Talvez seja até um pouco de comodismo por termos um transporte coletivo de fácil acesso, rápido e até confortável. Ele pega o ônibus perto de casa e desce a uma quadra do trabalho.
Apesar do medo de carro, ele não tem nenhum problema com avião. Chegou a fazer toda a parte teórica de um curso de aviação, no Aeroclube de Londrina, e tem 30 horas/aula de vôo. Para terminar o curso só faltou a parte de pouso. Não terminei porque acabou ficando muito caro. Ele chegou a ter aulas também em auto-escola, para tirar carteira de motorista. Não terminou, mas diz que ainda vai voltar a tentar. E quem sabe, logo logo a população possa vê-lo chegar ao Centro de Saúde de carro, como qualquer médico faz.José de CarvalhoDiferenteO médico James, 42 anos, chegando ao Centro de Saúde de Ibiporã, seu local de trabalho, de roller. Integrante de grupo teatral, ele diz que atividade ajudou muito no relacionamento com as pessoas: Hoje lido muito melhor com meus pacientes.Benê Bianchi





