Mario CesarNa alegria e na tristezaO pastor Gérson Araújo no Hospital Evangélico: ‘Às vezes, o conforto é o nosso silêncio’ O médico das almas. Assim pode ser definido o trabalho que o padre Antônio Fiori, da Congregação dos Padres Capelinos, desenvolve desde fevereiro na Santa Casa de Londrina. Diariamente ele percorre os corredores do hospital, atendendo os doentes que estão internados na instituição. Aliás, qualquer doente, independente do credo, raça ou profissão. A diferença é que, no lugar de instrumentos cirúrgicos, gases e ataduras, padre Fiori utiliza a palavra; e no lugar dos remédios, o apoio.
‘‘Procuro me colocar no lugar das pessoas e entender o sofrimento delas. A partir daí, tento levar a cura espiritual, que tem repercussão imediata na cura física’’, explica o padre, que nasceu em Ibiporã, no Norte do estado, estudou em Roma, na Itália, e trabalhou também em hospitais da Alemanha, entre 1979 e 1982 e também durante 1993. ‘‘As pessoas normalmente ficam mais contentes a partir do nosso trabalho. E sei que, pelo sacerdócio, em algum ponto o paciente estará recebendo a cura.’’
O trabalho em hospitais é uma tradição dos Capelinos e também na Santa Casa da Misericórdia, onde é desenvolvido há mais de 60 anos tanto pelos padres como pelas irmãs. Para Antônio Fiori, tudo começou quando foi estudar na Itália, em 79. Ele aproveitava o período de férias, que duravam de dois a três meses, e ia para Alemanha, onde morava e atendia nos hospitais. ‘‘O trabalho para mim, naquela época, era mesmo férias’’, afirma. Além disso, podia praticar e desenvolver a língua alemã.
Padre Fiori explica que a postura da igreja em relação aos doentes tem mudado muito, sobretudo após o Concílio do Vaticano Segundo, nos anos 60. A partir daí, ele diz, a compreensão do doente foi ampliada, caminhando para um atendimento integral, não só do corpo como também da alma. Exemplo disso é que, a partir do Concílio Segundo, a idéia de ‘‘extrema unção’’, concedida ao paciente em fase terminal, foi substituída pela ‘‘unção dos enfermos’’, ou seja, para qualquer quadro clínico. ‘‘O sacerdócio deve ser da esperança, não do sofrimento.’’
Mario CesarNa saúde e na doençaO padre Antônio Fiori: ‘Eu sempre dizia para as irmãs não deixarem ninguém morrer sozinho’
O padre também acredita que na doença a pessoa reencontra o que ele chama de ‘‘eu real’’, onde as diferenças físicas e sociais desaparecem e todos ficam iguais. ‘‘A cultura moderna faz com que as pessoas se esqueçam desse ‘eu’. E na doença acaba o teatro. Esse é o aspecto positivo do nosso trabalho. Eu quero ser o mediador desse encontro’’, diz. E assegura: ‘‘O homem, depois dessa experiência, se torna mais tolerante, mais solidário.’’
Outra preocupação, hoje dentro dos hospitais, é tirar do tratamento médico o caráter meramente técnico. ‘‘O perigo é tratar o doente como uma máquina, vê-lo sem as emoções.’’ Certa vez, em Munique, Fiori conta que encontrou uma senhora em uma loja de calçados. Ela se aproximou e perguntou se ele era padre. Depois da resposta positiva, a mulher começou a chorar. Em seguida, contou o motivo da angústia: ela tinha acabado de sair do hospital e, apesar de toda tecnologia encontrada, de todo atendimento de alta qualidade, sentiu uma solidão profunda, indescritível.
‘‘Isso me marcou muito. Na época eu morava no hospital e sempre dizia para as irmãs não deixarem ninguém morrer sozinho. Que me chamassem, em qualquer hora do dia.’’ O padre lembra também o pensamento de algumas figuras da história, que se preocuparam e se preocupam com o tratamento espiritual dos doentes, antes ou depois do Concílio Segundo. Como o papa Inocêncio III, que ainda na Idade Média determinou que os doentes fossem chamados de ‘‘senhores’’. Ou o escritor tcheco Jaroslav Seifert, prêmio Nobel de Literatura em 1984, que disse ‘‘morrer com amor é suportável; sem amor é desespero’’. Ou então o médico francês Alexis Carrel, vencedor do Prêmio Nobel de Medicina em 1912: ‘‘Onde se reza o ambiente é mais sadio’’.
No período em que atendeu na Alemanha, ou mesmo na pequena experiência em Londrina - não só na Santa Casa mas também no Hospital Infantil e no Mater Dei -, padre Fiori já acumula histórias, algumas comoventes, outras marcadas pela dor e a angústia. Uma delas aconteceu recentemente na Santa Casa: um velho indigente, muito cansado e quase sem conseguir falar, segurou na mão do padre e com ela alisou o próprio rosto. ‘‘São gestos comoventes. E o papa já disse, certa vez, que o rosto do doente é majestoso.’’
Situação mais delicada o padre passou na Alemanha, no período em morou lá. Uma senhora doente de câncer, já em fase terminal, perguntou a ele: ‘‘Eu sei que vou morrer. Então, por favor, me ensine a morrer!’’ ‘‘Foi uma das questões mais fortes que recebi. Então disse a ela que a vida é como um tapete: de um lado parece esfiapado, duro; mas de outro tem um desenho que é muito bonito e vale a pena.’’
Situações como esta não tiram o bom humor do padre, que brinca: ‘‘Aqui, no hospital, nunca faço cara de tragédia’’. Ele tem consciência não só da importância como também a delicadeza que é realizar este tipo de trabalho em um hospital, onde a tensão é sempre muito grande tanto entre os doentes quanto também entre médicos e enfermeiros. Por isso, procura nunca passar mais tempo com as pessoas do que o necessário.
‘‘Não existe um tempo específico, cada caso é um caso. Mas procuro ser breve e intenso. Não quero fazer hora.’’ Ele observa também que na Alemanha o tratamento aos doentes é muito mais frio, despido de sentimentos, do que acontece em países latinos como o Brasil. Isso, segundo o padre, de alguma forma facilita o convívio nos hospitais, que acaba gerando emoções e satisfações diferentes a cada atendimento. ‘‘Outro dia uma pessoa esteve aqui e disse que nem parecia que estava em um hospital. Isso deixa a gente muito feliz.’’
A preocupação com a saúde espiritual dos doentes não é exclusividade da Igreja Católica. Pelo contrário: no Hospital Evangélico, por exemplo, o trabalho de capelania é feito há 22 anos pelo pastor Gérson Araújo. ‘‘Antes de 1975 já existia um trabalho, no antigo prédio do hospital, mas não sistemático’’, diz o pastor, que também é suplente de vereador em Londrina pelo PSDB. Além dele, O HE mantém outros dois pastores: um atende no próprio HE e outro no ambulatório Alto da Colina.
Gerson Araújo conta que diariamente está no hospital e recebe uma lista com todas as últimas internações. Em média, são aproximadamente 50 novos pacientes e praticamente todos são visitados. ‘‘A primeira visita é compulsória. Depois, a gente atende se realmente for preciso ou então se o paciente pedir’’, explica. ‘‘Mas você tem que ter a sensibilidade para saber que hora dá para conversar e que hora não dá. Normalmente a gente é recebido com muita alegria.’’
O pastor considera que o atendimento em hospitais é muito delicado porque o paciente, em geral, se encontra debilitado física e emocionalmente. Para ele, a internação se transforma em um momento de reflexão: ‘‘Aqui é a antecâmara da morte, onde começam os questionamentos. A grande crise do homem é a insegurança quanto ao futuro e muitas vezes a gente tem que preparar a pessoa para morrer’’, avalia. ‘‘Por isso, já passamos por muitos momentos de alegria e também outros de profunda tristeza. Às vezes, o conforto fica por conta do nosso silêncio.’’
Gerson Araújo diz que o grande ‘‘milagre’’ que muitos esperam encontrar no atendimento espiritual, na esperança da cura, às vezes surge de forma diferente, quando o paciente abandona um estado de angústia e desespero e adquire serenidade diante de uma nova situação. ‘‘No hospital a pessoa está com o moral muito baixo. E a gente tenta elevar esse moral. Sem contar a obrigação específica, que é a palavra de Deus.’’
Além do trabalho junto aos doentes, a capelania também atende médicos e, principalmente funcionários do Evangélico. O trabalho é feito em 30 setores diferentes do hospital e reúne mais de 400 participantes. Também foi organizado um coral só de funcionários, que se apresenta na própria instituição. ‘‘O objetivo é dar um relaxamento espiritual, para dar mais segurança para quem vive diariamente sob tensão.’’
Uma das funções do capelão é ser o portador das boas e, invevitavelmente, más notícias. Tanto para pacientes, que se encontram num quadro irreversível, como também para familiares que acabaram de perder um parente. O pastor Araújo conta um caso que o marcou bastante: certa vez, dois irmãos menores de idade, um menina e uma menina, sofreram acidente e foram encaminhados para o Evangélico. O garoto estava em estado grave; a menina morreu.
‘‘Fui até a mãe e dei a notícia. Ela deu um grito, ficou emocionada, mas o importante foi o que ela disse depois do enterro. Ela contou que a pessoa que mais odiava na vida, a partir do acidente, foi aquela que deu a notícia da morte da filha. Para ela, fui eu quem matei a filha’’, recorda.
O sentimento da mãe só começou a mudar quando o trabalho passou a ser direcionado para o garoto, que se recuperava no hospital. Ele tinha ficado bastante agressivo depois do acidente e a família decidiu não contar sobre a morte da irmã, com receio de sua reação. Até que o pastor, com a anuência da família, resolveu falar a verdade, alguns meses depois. ‘‘Na hora ele gritou. Depois choramos juntos e foi ele quem passou a me confortar.’’
Com 22 anos de trabalho também foi possível colecionar algumas ‘‘bolas fora’’, como define o pastor. Ele lembra quando foi comunicar à uma mulher a notícia da morte do marido: disse a ela que o corpo estava no necrotério e a acompanhou até lá. A esposa viu o corpo do homem, coberto pelo lençol, o abraçou e chorou. Quando levantou o lençol, viu que não era o marido. ‘‘Ou eu me confundi ou então me apontaram a pessoa errada. O marido que morreu era de outra mulher.’’
Outra história também ficou guardada na memória do pastor. Um senhor de idade avançada estava na UTI do Evangélico em estado terminal, sem condições de recuperação. Mas os médicos estranharam porque ele não se comunicava, não emitia qualquer sinal, e permanecia vivo. Parecia estar esperando, angustiado, alguma coisa antes de partir definitivamente.
‘‘Fui conversar com a esposa dele. Ela disse que ela gostaria de visitar o marido mas a família não permitia, com medo que ela sofresse muito’’, lembra. Pastor Araújo conta que, quando chegou com a mulher na CTI e ela disse ‘‘meu querido’’, o paciente abriu os olhos no ato, emocionado. ‘‘Em seguida ela fez uma emocionante declaração de amor ao marido, que comoveu a todos no quarto. Depois disse: ‘Meu bem, agora você pode partir’. Deu um beijo no marido e saiu. Meia hora depois ele morreu.’’

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