Londrina - O médico Justiniano Clímaco da Silva foi um dos médicos que se dedicou ativamente para a construção da Santa Casa de Londrina. A constatação está no livro "O Doutor Preto - Justiniano Clímaco da Silva - a presença negra pioneira em Londrina", resultado de uma pesquisa realizada pelas sociólogas Maria Nilza da Silva e Mariana Panta.
Formado em Medicina em Salvador (BA), ele foi o único negro de sua turma. "Se hoje existe discriminação contra negros, imagine como era naquela época. Era bem pior", destacou Maria Nilza. Ele chegou a Londrina em 1936 e foi sócio fundador da Associação Médica de Londrina, em 1941. Além da Santa Casa, Clímaco construiu o Hospital Santa Cecília, que funcionava na Rua Belo Horizonte no início dos anos 50. Foi professor de Latim e Matemática no Colégio Londrinense e foi deputado estadual em 1945. "Ele é o único negro que consta no Memorial dos Pioneiros, ao lado da Praça Primeiro de Maio", revelou a pesquisadora. "Ele atendia muitas pessoas que não tinham condições de pagar pelas consultas e sempre foi uma pessoa muito querida. O resultado disso é que ele se tornou padrinho de muitos casamentos", destacou Maria Nilza.
De acordo com as autoras, o médico participava das campanhas de arrecadação de fundos e doou ao hospital a sua própria maleta médica. Durante duas décadas trabalhou no pronto-socorro da instituição. "Em uma das fotos que encontramos ele está na frente de uma jardineira e se lê ao fundo uma faixa em que está escrito ‘Campanha Pró-Hospital’", revelou a pesquisadora.
Clímaco foi pioneiro no uso da penicilina em Londrina para o tratamento de doenças venéreas. Na época a cidade era famosa por seus prostíbulos e as doenças sexualmente transmissíveis eram muito comuns. "Uma das pessoas que entrevistei para escrever o livro, uma enfermeira, chegou a dizer que tinha dó quando chegava ao seu conhecimento que uma mulher iria se casar na cidade, pois era quase certo que ela contrairia uma doença venérea ", revelou Maria Nilza.
A relação do médico com as religiosas do Instituto Secular de Schoenstatt, que trabalhavam como enfermeiras na Santa Casa – e continuam o serviço até hoje -, era de muito respeito. Certa vez, quando vendeu a produção de café de uma chácara que ele possuía, resolveu comprar um harmônio (um instrumento musical de teclas com som semelhante ao de um acordeão) para as irmãs da Santa Casa, para incentivar a música e o canto e que pudesse ser utilizado na festa de Natal do hospital. Segundo relato concedido por Clímaco ao Projeto Coleta e Organização de Fontes Orais para o Centro de Documentação e Memória da Associação Médica de Londrina em 1998, ele revelou que escreveu para a fábrica do instrumento, pagou e pediu para que o fosse entregue antes do Natal. "Quando chegou o caminhão, eu levei na Santa Casa e foi para a irmã Bona", destaca no registro. (V.O.)

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