Nos primórdios de Londrina, nas décadas de 1930 e 1940, a avenida Paraná, atual calçadão, nos finais de semana era reservada para a paquera. Com a presença inglesa na cidade, o lugar ganhou o nome de ''footing'' (em referência a ''a pé''). Muitos casamentos saíram dali. As moças comportadas e os rapazes com suas melhores roupas desfilavam pela avenida esperando por um olhar correspondido. Se acontecesse um oi, era praticamente começo de namoro.
Foi no footing que uma moça de 14 anos de idade conheceu um ''partidão'': um rapaz magro, alto, de cabelos escuros, 10 anos mais velho que ela, que vinha de cavalo da distante Fazenda Santana para paquerar por ali. Foi praticamente amor à primeira vista e o casamento aconteceu assim que ela completou 16 anos, idade permitida pela legislação da época para o matrimônio.
A moça da história é Clea Mello Gonzaga de Oliveira, 80 anos, que chegou a Londrina em 1938, com os pais e sete irmãos. O rapaz era Olavo Gonzaga de Oliveira, falecido em 1973, que tocava a fazenda distante de 300 alqueires e 85 mil pés de café que se transformou na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e no bairro Portal de Versalhes.
Com a memória afiada, Clea conta que em meio aos cafezais seu marido sempre fez questão de preservar as perobas, pois sabia que a árvore era valorosa do ponto de vista financeiro e biológico. O sogro de Clea, Lizandro Gonçalves de Oliveira, que já era grande cafeicultor em São Paulo, decidiu investir nas terras do Norte do Paraná em 1929, antes de os ingleses começarem com os loteamentos da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP); e também achava importante a preservação das perobas. Assim, Londrina foi crescendo e a fazenda Gonzaga acabou sendo conhecida também como ''Perobal''. Não por acaso, a peroba rosa é o símbolo da UEL.
Com o casamento, ela trocou a Vila Nova, praticamente na área central da cidade, para ir morar na fazenda. As ''viagens'' até a área urbana eram feitas de charrete, mas quando chovia ficava impossível fazer o percurso. Energia elétrica não havia. A água era de mina, gelada. ''Para esquentar para tomar banho, fizemos uma tubulação que passava por dentro do fogão de lenha'', recorda. ''Tinha um funcionário que era contratado só para ir à mina buscar água. Também lembro que o Ribeirão Cambé era uma beleza e fizemos questão de preservar a mata que estava em volta dele nas nossas terras. O barro desse ribeirão serviu para a construção das primeiras casas de alvenaria da fazenda'', completa a pioneira.
Em 1955, a família deixou a fazenda para ir morar em São Paulo, onde estava o restante do clã Gonzaga de Oliveira. Olavo voltava quinzenalmente a Londrina e Clea nas férias escolares dos 10 filhos, todos acomodados numa Kombi. ''A saudade desta terra me incomodava demais. Não devia ter saído nunca daqui'', comenta.
Quatorze anos depois, em 1969, a UEL estava em fase embrionária e o ''perobal'' foi o local escolhido para abrigá-la. ''Trinta alqueires foram vendidos para o governo do Estado e 16 alqueires foram doados'', explica Clea. Muitos colonos que cuidavam dos cafezais da Santana se tornaram os primeiros funcionários da universidade e ainda hoje trabalham nela e moram no jardim Versalhes, em terrenos que ganharam da família Gonzaga Oliveira quando foi feito o loteamento, em 1973. A própria sede da fazenda ainda está intacta, na Rua Kazuo Nishiama.
''Eu jamais imaginava que a universidade se tornaria o que é hoje. Fico muito feliz com a importância dela e honrada por saber que boa parte (da UEL) está sobre as terras que eram da nossa família. Também fico extremamente contente por ter sido criada em Londrina. Essa cidade é a minha vida!'', finaliza a pioneira. (W.S.)

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