A doméstica Marilsa Costa de Oliveira tem o coração maior que o mundo e não esconde isso de ninguém. Ela adotou cãezinhos que viviam na rua pelo simples fato de não conseguir dormir, nem comer se vê um bichinho abandonado.
''Depois que meu marido levanta, de manhã, eles vêm me acordar na cama e tenho que dar bom dia à todos'', conta a doméstica, que tem 12 cachorros e um gato. Os três filhos e o marido até ajudam a cuidar dos animais, mas é Marilsa quem faz o trabalho duro.
''Gasto três sacos de ração todo mês, tudo do meu bolso.'' Se vê um cão vagando pela rua, ela logo se deprime. ''Bate uma tristeza profunda e o sentimento de que tenho que fazer alguma coisa'', justificou a doméstica, que encontra conforto emocional nos pets. ''Quando estou triste, eles me seguem e sinto a energia deles passar para mim. Eles me fazem carinho e aí fico bem'', confessou.
Diferente de Marilsa, que nasceu com o dom - ou coração enorme o suficiente para amar os bichinhos abandonados, se preferir -, a maioria dos donos de pets deveria fazer um curso para aprender a lidar com os animais.
A opinião é do médico veterinário João Telhado, doutor em comportamento de animais de companhia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Ele esteve em Londrina recentemente, participando de um curso sobre comportamento em cães e gatos, e explicou o quanto a relação entre bicho e dono é semelhante aos relacionamentos humanos.
Segundo Telhado, antes de adquirir um pet é preciso ter consciência de que o convívio com o animal será de, no mínimo, 15 anos. ''Ocorre como nas relações humanas, num momento tudo vai bem, no outro não.'' Conforme o veterinário, o homem precisa entender que o cão ou gato não é descartável, apesar de muitos pensarem dessa forma. ''É uma união sem divórcio, até que a morte os separe e esperamos que seja morte natural'', comparou Telhado.
Por ser um relacionamento como outro qualquer, é preciso conhecer o outro e ter paciência, de acordo com o veterinário. Para ele, ''a escolha de ter um pet tem que ser mais racional que emocional'', para se evitar o abandono do animal. ''Repare que a maioria dos cães de rua veio de uma casa'', apontou.
Segundo Telhado, na Europa é comum o abandono de animais mais velhos principalmente nos períodos de férias. Já no Brasil o abandono ocorre em qualquer idade e a todo momento. ''Todo mundo gosta de um filhote, aí ele começa a crescer e vai perdendo a graça para o dono, que muitas vezes abandona o bicho dentro da própria casa, deixando de dar atenção ao animal'', argumentou Telhado.
Conforme ele, a idade crucial, quando o dono deve estimular ao máximo o pet, é durante a socialização primária, que acontece da segunda até 14 semana de vida do bicho. ''É também a fase mais esquecida pelo dono'', completou.
Depois, é na adolescência, que dura até um ano e meio da vida do cão, que o dono deve impor os limites. ''Como os adolescentes, os cães também se rebelam, desafiam os donos nessa fase'', disse Telhado. Segundo ele, comandos básicos como senta, deita, fica e junto devem ser usados para tentar modificar o comportamento do animal.
Na maior parte da vida, o cão ou gato será adulto ou idoso e apresentará problemas típicos da idade, como os humanos. ''Depois dos oito anos, o animal começa a apresentar problemas de saúde e é nesse momento que o dono percebe que o bichinho, que antes era tão engraçado, tornou-se um fardo e precisa ter cuidado com as atitudes que irá tomar.''
Para Telhado, ''o modo como você cuida do cão idoso pode espelhar o modo como você irá tratar do homem idoso, já que o pet é quase sempre o primeiro a ficar idoso numa família''.
Ainda segundo o veterinário, os donos costumam enxergar no pet o filho ideal, ''aquele que não cresce, que não contesta. E muitos ofertam um amor danoso ao animal. Por isso tem muito bicho obeso, usando roupas, sendo tratado como o ser humano que ele não é''.
Quando isto acontece, normalmente o problema é do proprietário e muitas vezes requer ajuda psicológica. ''Além dos veterinários, já existem livros e até artigos na internet em que é possível estudar o assunto e buscar uma solução. Outra dica é conversar com donos de cães da mesma raça'', sugeriu o veterinário.

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