Quarenta e oito horas depois da Polícia Militar ter retirado os sem-terra da fazenda Santa Maria, em Jaguapitã (46 km ao norte de Londrina), um dos 13 sócios da propriedade, o agropecuarista José Eduardo Meireles, abriu ontem a área para a imprensa. O objetivo, segundo ele, era mostrar os estragos provocados durante os 29 meses em que os sem-terra permaneceram no local. Ele disse temer uma nova invasão.
‘‘As estatísticas mostram que a reincidência de invasão nas áreas desocupadas é muito grande. Em outras propriedades nossas (uma em Guairaçá e outra em Monte Castelo, próximo de Paranavaí) ocorreu mais de uma invasão. O porteiro da fazenda tem um rádio operando na mesma faixa da polícia. Qualquer movimento suspeito ele está autorizado a pedir reforço. A própria Polícia Militar se comprometeu a fazer ronda na região para evitar a movimentação dos sem-terra pelas imediações’’, afirmou Meireles.
O sócio-proprietário calcula que os prejuízos cheguem a R$ 1 milhão. ‘‘Só para tornar esse solo agricultável novamente teremos que investir R$ 1 mil por alqueire. Será preciso recuperar ou reconstruir uma máquina de beneficiamento de café, destruída pelo fogo na madrugada da desocupação, entre outros barracões. A propriedade está completamente abandonada. Tínhamos aqui 1.400 animais confinados, colhíamos 22 toneladas de soja e 1.200 sacas de milho. Estamos há dois anos sem produzir nada e vamos ter que investir alto para retomar a produção’’, observou.
Meireles mostrou o prédio da antiga máquina de beneficiamento. ‘‘Aguardamos a vinda do perito da Criminalística para comprovar se o incêndio foi criminoso, mas é óbvio que foi, pois nem eletricidade tinha aqui, e tudo ocorreu a poucas horas da desocupação’’, acusa. Ele mostrou o mato que toma conta de grande parte da área onde antes era feito o confinamento. O curral, segundo Meireles, avaliado em R$ 30 mil, está sem brete, balança e outros equipamentos. Ele também abriu as antigas casas da fazenda dizendo que estão destruídas.
A 33 quilômetros ao norte da Fazenda Santa Maria, no Assentamento Florestan Fernandes, em Florestópolis, para onde a maior parte das 80 famílias de sem-terra foram levadas, a versão é diferente. Com os pertences espalhados pelo pasto, ontem eles levantavam acampamento. ‘‘Só Deus sabe em que situação encontramos aquela fazenda. A colöônia estava abandonada, bem como os barracões. Se não trabalhamos toda aquela área foi porque não tivemos nenhum apoio com financiamento ou maquinário’’, rebate Rubens Meira de Souza.
Sobre o incêndio, o monitor do antigo acampamento afirma que os sem-terra são inocentes. ‘‘Não depredamos propriedades e nem temos seguro para pagar prejuízos. Assim que soubemos do incêndio, fizemos de tudo para controlá-lo, pois sabíamos que isso seria usado contra nós. Chamamos o Corpo de Bombeiros, mas a polícia não foi permitiu a entrada deles na propriedade.’’
Ele classifica como péssima a situação atual das quase 80 famílias – algumas desistiram do movimento após a desocupação. ‘‘Fomos jogados num pasto justamente no período mais frio do ano’’, reclamou. Nelson Vieira dos Santos, responsável pelo cadastro do acampamento, revela que o grupo tem 108 crianças. Jair Andretta, um dos líderes do Assentamento Florestan Fernandes, disse que a área de 218 alqueires abriga 29 famílias. ‘‘Estamos fazendo o possível para ajudar esses nossos irmãos, mas sabemos que não é o suficiente para surprir a necessidade deles.’’

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