Donas de casa penduram as vassouras
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de março de 1998
Paulo Pegoraro 
Edson Mazzetto
SímboloMulheres reunidas discutem atividades para o ano: vassoura pendurada simboliza mudança de comportamento; reassentadas da Fazenda Barater, antes tímidas, agora vendem produtos orgânicos em Cascavel Mulheres de pouca formação escolar, muitas sem ao menos ter um documento de identidade, que cuidavam apenas dos filhos e da casa, passam a assumir papel de liderança nas áreas onde estão sendo reassentadas famílias que terão terras alagadas com o represamento do Rio Iguaçu, no final de dezembro, pela barragem da Hidrelétrica de Salto Caxias. Durante anos, elas viveram geralmente em locais isolados, onde não havia discussões sociais, econômicas ou políticas.
Nos reassentamentos, a maior parte deles localizados em Cascavel, as mulheres participam ativamente de um projeto de afirmação de sua cidadania. Durante a semana, elas estiveram envolvidas em debates para o planejamento de atividades durante o ano, no reassentamento da Fazenda Piquiri. No salão onde se reuniram, simbolizaram sua disposição de ocupar espaços na comunidade pendurando a vassoura na parede e no teto, segundo definiu Margaret Maran Nunes, 32 anos, três filhos.
Margaret é uma das principais líderes da Comissão Regional dos Atingidos por Barragens do Iguaçu (Crabi) e presidente da Associação de Famílias São Lucas, da Fazenda Piquiri. Ela já esteve na frente de várias manifestações feitas pela Crabi, na fase em que a entidade travava discussão com a Copel para assegurar direitos aos agricultores que terão terras alagadas. Margaret se empenha atualmente na definição de um modelo educacional para o campo, destinada aos filhos de reassentados.
Nós somos da agricultura e queremos que nossos filhos permaneçam no campo, afirma, acrescentando que a vida nas cidades é ilusoriamente atrativa, mas para que o êxodo não ocorra é preciso haver condições adequadas, inclusive para a formação escolar das crianças. O modelo proposto compreende currículos relacionados à cultura e tradições das famílias rurais e escolas nos próprios reassentamentos. Margaret afirma que é descartada a opção de transportar as crianças para escolas na cidade, em ônibus da prefeitura.
Neuza Rocha, 28 anos, dois filhos, conta que antes ficava em volta do fogão, de cabeça baixa. Mas hoje sente-se como uma advogada das mulheres, por ter adquirido conhecimentos ao longo de discussões travadas. Terezinha Lurdes da Silva, 42 anos, oito filhos, chama atenção para uma questão típica de comunidades rurais, geralmente de forte sentimento religioso e familiar, com preceitos de moralidade: a discriminação contra mulheres separadas. Aprendi a não discriminar e reconheço que era uma bobagem, afirma.
A assistente social Carin Massolo, que orienta as discussões nos reassentamentos, diz que as mulheres estão saindo da invisibilidade, passando a interferir cada vez mais no dia-a-dia de suas famílias, nas decisões comunitárias, e na construção de um projeto solidário e democrático para o campo. Elas têm competência, que aflora com a auto-estima que adquirem, diz Carin.
Outras mulheres, do reassentamento da Fazenda Barater, também em Cascavel, antes tímidas e pouco habituadas a negócios ou contatos mais abertos com pessoas da cidade, agora vão duas vezes por semana ao movimentado Calçadão para armar barraca na qual vendem produtos orgânicos, como conservas, hortaliças, ervas medicinais e pães que elas próprias produzem. As mulheres fazem questão de proclamar a qualidade dos produtos, nos quais não são utilizados agrotóxicos, conforme está expresso no selo Flor do Sol, fixado nas mercadorias.


