Astorga Nascer em um século, atravessar outro, alcançar a primeira década do terceiro parece ser um plano de quem sonha com a eternidade.
Mas Maria Olívia da Silva, nascida em Itapetininga (SP) há 124 anos, chegou lá. Pelo menos é o que dizem a segunda via (a primeira foi consumida num incêndio doméstico em 1994) dos seus principais documentos, o filho que mora com ela e os vizinhos do seu modesto endereço, uma casa velha de madeira na localidade rural de Içara, em Astorga (80 km a oeste de Londrina).
Acima da polêmica inclusão do seu nome em livros de recordes onde figuram melancias gigantes, elefantes anões, e os quais ela, analfabeta e quase cega, jamais poderia ler qualquer visitante da casa onde Maria Olívia vive há seis meses iria se preocupar com outra coisa.
Içara é um distrito como qualquer outro no Norte do Estado. Para encontrá-lo, vindo de Astorga, é só observar um cruzeiro à margem da rodovia e convergir à direita. No perímetro, barro no asfalto e ruas desertas. Durante à tarde, grande parte dos homens e das mulheres está na roça (as outras estão atarefadas com a lida doméstica). A monotonia é quebrada com a algazarra das crianças e dos vira-latas, sempre dispostos a se distraírem com um forasteiro.
Não é preciso saber o logradouro e a numeração para chegar à casa da dona Maria, como a ex-lavradora é conhecida no lugar. Basta mencionar a idade dela e qualquer criança que está na rua logo a identifica e mostra o caminho da casa. Ela mora na Rua Sergipe, 196. O portão é uma placa de compensado, onde estão escritas precariamente as palavras Topa Tudo.
Outra placa, já dentro do quintal, informa que ali se conserta ''de tudo''. Do portão até a porta são 20 metros sem pavimento. Na chuva, o chão batido fica liso e é uma armadilha para pernas mais frágeis. A casa onde vive dona Maria foi construída na frente do terreiro de secar café. É pequena: tem quatro cômodos e 40 metros quadrados. Custou R$ 3,2 mil. Nos fundos, ao lado dos limites de Neguinho o cão de estimação que fica preso para não incomodar a moradora centenária , tem toda sorte de quinquilharias. ''Tem muita coisa aí que não deu conserto e outras que não vieram buscar'', explica Aparecido Honório Silva, 58 anos, o filho adotivo, que nunca se casou para cuidar de dona Maria.
Aparecido tem poucos fregueses e perdeu muito de sua energia com um acidente vascular cerebral, acontecido recentemente. O autônomo vive, de fato, com a pensão do pai, o lavrador Benedito Honório, morto aos 83 anos em 1964. O benefício é de um salário mínimo. ''Os últimos três meses têm sido difíceis porque estou gastando quase tudo com uma injeção (segundo ele, cada unidade custa R$ 250,00). O médico disse que se eu não tomar, posso ter outro derrame. E aí, quem cuida da minha mãe?'', explica, angustiado.
Sem volume de trabalho e sem renda, Aparecido é ajudado por vizinhos e por membros da igreja da mãe, a Congregação Cristã no Brasil (dona Maria tem formação católica e se converteu há 41 anos). ''Ele tem ajuda até suficiente mas falta alguém para cuidar com mais atenção da higiene de dona Maria'', observa a dona de casa Eliséria Santana de Andrade, a vizinha da frente.
O filho pensa em se mudar novamente, talvez para Minas Gerais, onde moram alguns parentes. Na verdade, os dois vivem sozinhos há décadas e peregrinaram por Santo Inácio, Maringá, Presidente Prudente (SP), Porecatu.
Nem um dos dois moradores da casa lembra-se de uma visita marcante dos outros dois filhos vivos nos últimos anos. Aparecido nem sabe quantos netos, bisnetos e tataranetos a mãe tem. Nenhum deles saberia descrever a situação em que vive a mulher centenária, de 1,59m e 37 quilos, que nunca venceu a pobreza, o atraso e o desamparo do sistema de saúde, apesar de ter trabalhado duro até os 83 anos. Uma personificação da imobilidade sócio-econômica do País, que quando ela nasceu ainda mantinha a escravidão na legalidade. ''Tem dias em que ela fica olhando o portão por horas, esperando alguma visita. Quando vem alguém, ela se anima, e até caminha melhor. Ainda bem que não se lembra que foi esquecida pela resto da família.''
Enquanto ela assiste a vida passar, às vezes em pé com ajuda de uma bengala, outra vezes em uma cadeira de rodas, ''a mulher mais velha do mundo'' como querem alguns, dona Maria não se descuida de hábitos arraigados: café com bolinhos de manhãzinha; um pouquinho de arroz, feijão e carne às 10h30 e um jantar bem leve às 16h30. ''Ela dorme cedo. Umas 7 horas ela já deitou. Se eu fico assistindo TV até umas 8, ela já reclama''.

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