Dona Esperança, às voltas com a política
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segunda-feira, 09 de setembro de 2002
Phoenix Finardi<BR>Reportagem Local 
Dona Esperança saiu de casa bem cedo, trancou a porta e foi caminhando até o comitê do candidato, instalado num bairro nobre de Londrina ''para economizar o passe de ônibus''. No caminho começou a prestar atenção nos out-doors. ''Nossa, eu não imaginava que tinha tanto candidato assim! Porque será que aparecem todos sorrindo?'' Mais tarde, depois de pegar o maço de panfletos que deveria distribuir aquele dia numa esquina do centro da cidade, Esperança se acomodou no banco da perua que levava os cabos eleitorais e comentou a dúvida com a amiga e vizinha Neide, uma gaúcha esquentada que não tinha ''papas na língua''.
A resposta demorou um pouco. Só depois que desceram do carro e ficaram sozinhas na esquina: ''Sabe porque eles todos aparecem rindo nesses cartazes aí? É porque moram em outro país, sua boba! Eles não andam de ônibus, têm carros bons e dinheiro pra combustível; não moram em favela, nem em barraco. Vivem numas casas boas, grandes, com quarto e banheiro pra todo mundo ou em apartamentos que tem churrasqueira e até academia de ginástica no prédio. E tem mais, Esperança, eles não passam frio, não passam fome, mandam os filhos estudar em colégio particular. É por isso que eles vivem rindo, entendeu?!''
No fim do dia, as pernas doendo de ficar horas em pé na esquina entregando os panfletos, Esperança guardou com cuidado a diária de R$ 10 na bolsa. A caminho de casa mais uma vez a pé até o bairro distante da periferia de Londrina, ela parou para comprar o ''jantar'': pão com mortadela.
À noite, mastigando o pão na frente da velha TV, Esperança pensava no que Neide havia dito. Na televisão, o horário eleitoral mostrava as mesmas caras sorridentes e gordas. Todos brasileiros bem intencionados, querendo ajudar o país a crescer, desenvolver, ter mais empregos, mais saúde, mais investimento na educação...
De repente, um candidato novo na telinha. Sem sorrir, ele faz um discurso diferente. Esperança não acredita no que está ouvindo: ''Boa noite, meu nome é fulano de tal, sou candidato e quero esse emprego porque o salário é muito bom. Também tenho duas idéias práticas para melhorar o país: vou mudar o estatuto da criança e do adolescente e acabar com a impunidade do menor infrator. Vou mudar a legislação trabalhista e acabar com esse monte de privilégios porque acho que essa é uma das causas do desemprego no país. Os empresários reclamam, com razão, que para cada trabalhador admitido eles gastam o equivalente a dois''. Dona Esperança correu na cozinha, tirou um caderninho velho do armário e anotou o número num pedaço de papel. No dia seguinte, a vida continuou a mesma, ou quase. Esperança agora olhava os cartazes e dava um pequeno sorriso.
No dia da eleição ela entrou decidida na sala. Tirou o pedacinho de papel do bolso e digitou os números, devagar. Depois, já na rua, arrancou todos os cartazes colados no muro da casa dela, juntou com os panfletos que haviam sido jogados na entrada, bem junto da porta, e fez uma fogueira no quintal.


