Dona-de-casa denuncia golpe da compra
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2005
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Uma camisa do tricampeão mundial São Paulo era o pedido da dona-de-casa londrinense Márcia Aparecida de Oliveira, 43 anos, a Papai Noel. Mas ao abrir o pacote misterioso que chegou à sua casa pelos Correios na véspera de Natal, a esperança de ter sido atendida se transformou em susto e decepção: ela se deparou com uma caixa de comprimidos para emagrecer e um boleto de cobrança no valor de R$ 330,00, em nome do filho de 17 anos.
''Aquilo não podia estar certo, porque minha família é toda magrinha. Como meu filho perdeu a declaração escolar recentemente, concluí que alguém achou o documento e usou os dados para aplicar um golpe'', contou Márcia à reportagem, logo depois de registrar queixa na 10 Subdivisão Policial (SDP).
Os medicamentos apresentados pela dona-de-casa traziam a marca SlimShape e anunciavam conter o princípio ativo quitosana - comum em remédios para emagrecimento e controle de colesterol. Já o boleto exibia o nome da empresa Net Cobranças e um aviso que preocupou Márcia: ''Este pedido está registrado em cartório virtual. O não pagamento implica negativação no SPC (Serviço de Proteção ao Crédito)''.
O documento explicava ainda que a transação havia sido registrada em um ''cartório digital'', gerando compromisso de compra. ''Imagine, meu filho mal começou a vida e está ameaçado de ficar com o nome sujo. Mas eu não vou pagar pelo que não compramos'', garante a mãe.
O chefe da Procuradoria de Defesa do Consumidor (Procon) em Londrina, Gerson da Silva, confirma que o negócio é irregular e alerta que golpes do gênero têm sido frequentes em Londrina. Muitas vezes, segundo ele, há cooperação das próprias vítimas. ''Na ânsia de emagrecer, as pessoas acabam crendo nessas promessas, preenchendo cadastros, achando que vão receber algo de graça. É sempre assim: você cai num golpe quando acha que é mais esperto que o golpista'', sentencia.
Silva afirma que o nome ''Net Cobranças'' já apareceu em outros supostos golpes semelhantes ao sofrido por Márcia, envolvendo produtos diversos como remédios e programas de computador. ''Nunca conseguimos localizar essas empresas, nem pela consulta ao CNPJ. Geralmente elas são de São Paulo e jamais atendem nos telefones anunciados'', ressalta.
Devido à dificuldade em notificar essas firmas, o Procon recomenda que as próprias vítimas das ''compras indesejadas'' tomem providências, como enviar uma carta registrada ao remetente da encomenda avisando que está devolvendo o produto.
''O cliente tem o direito de desistir da compra em até sete dias, seja nas vendas pela internet, por catálogo ou por reembolso postal. E é a empresa que vai ter que se virar para pegar o produto de volta, o comprador não precisa arcar com as despesas de reenvio'', ensina Silva. Ele ressalta que o registro da compra em ''cartório digital'' é ''história para boi dormir'' e não tem qualquer validade perante os órgãos de proteção ao crédito e a Justiça.
A reportagem entrou em contato com a SlimShape por meio do telefone de Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC). A responsável jurídica da empresa, Renata Rodrigues, alegou que os produtos são oferecidos através de anúncios inseridos em grandes sites de e-mails, como Hotmail e Yahoo, que levam os interessados diretamente à página de cadastro. ''O que acontece muito é que as pessoas não lêem todo o contrato, e se cadastram sem saber o que estão fazendo. Elas podem se arrepender da compra depois, mas o cancelamento é complicado'', afirma. A Folha não conseguiu contato com a Net Cobranças.
Serviço Quem se sentir lesado nas compras deve procurar o Procon. Em Londrina, o telefone gratuito é o 151.


