Silvana Leão
De Londrina
Nas tardes de domingo, as ruas tranquilas e recheadas de ca sas simples do Jardim Santo Amaro, em Cambé (13 qui lômetros a oeste de Londrina), ganham um vai-e-vem extra, que culmina em pontos eleitos como ‘‘point’’ pelos jovens do bairro.
Em locais como a Avenida José Afonso dos Santos, o dia de descanso ganha muita música, paquera e até competições esportivas, como as promovidas pela Gincana de Inverno que terminou no último fim de semana.
A Gincana tem a participação da única igreja católica do bairro e visa arrecadar alimentos para os Vicentinos. Assim como os agitos de domingo, já transformou-se em uma característica do Santo Amaro, bairro localizado praticamente na divisa entre Londrina e Cambé.
Alheios ao barulho provocado pelos jovens, os moradores mais antigos lembram de uma época em que o bairro, nascido da crise do café, era só lavoura. Coisa de 30 anos atrás.
‘‘Isso aqui era tudo terra. A Avenida Gabriel Fressero de Miranda era um carreador (trilha feita no meio do cafezal) e a BR-369 não existia. Nem padaria tinha. Meu pai é que entregava pão numa carroça’’, recorda o frentista Sérgio Antonio Tardioli, que chegou ao bairro ainda molecote, em 1974, seis anos apenas depois do início do loteamento que deu origem ao Santo Amaro.
A irmã do frentista, Sonia Regina Tardioli, hoje mora num bairro vizinho, mas visita frequentemente o local onde passou grande parte de sua vida. Ela concorda com Sérgio, que acha o bairro tranquilo.
Segundo eles, o maior problema é a falta de um melhor antendimento na área de saúde. ‘‘Mas qual o lugar que não está assim?’’ Os dois irmãos garantem que o bairro já conta com boa infra-estrutura e que o comércio local satisfaz a maioria das necessidades dos moradores. ‘‘Só quando a gente precisa comprar roupa e sapato é que vai para Londrina.’’
O paraibano Roque Januário da Fonseca, 75 anos, um dos primeiros a chegar e a construir no Santo Amaro, hoje já não reclama tanto dos problemas, mas até cerca de oito anos atrás não se cansava de praguejar contra os buracos e a lama que imperavam nas ruas sem asfalto.
Foram anos amassando barro. O ex-motorista da família Garcia chegou em Londrina em 1948 e morou anos a fio na Fazenda União, que ficava bem ali no trevo da BR-369. A primeira casa que construiu no bairro foi há quase 30 anos, antecedida apenas por duas outras construções.
Hoje seo Roque só afia a língua para falar da pouca sinalização nas ruas. ‘‘Isto aqui está abandonado. Não tem placas nem semáforo. Os moradores até se acostumaram, mas quem vem de fora estranha’’, afirma.
Ele não sabe há quantos anos exatamente veio com a família para o Santo Amaro, mas não esquece dos pés de café que teve que arrancar para erguer a casa de madeira, onde hoje mora sozinho, alheio à movimentação de carros e jovens na avenida. ‘‘Para mim não existe agitação’’, diz, acendendo tranquilamente o cigarro.
Uma das propriedades que abrigavam os cafezais e pastos lembrados pelos antigos moradores era o Sítio São José, da família Afonso dos Santos. A decisão de transformá-lo em loteamento veio em 1968, diante da crise provocada pelo baixo preço do café e da erradicação iminente da lavoura.
Seo Mário ‘‘Mineiro’’ Afonso dos Santos lembra de quando chegou ao local, ainda menino. Já se vão 52 anos. ‘‘Cambé se chamava Nova Dantzig, e 40% da região era tomada por matas.’’
Foi o pai de seo Mário que deu nome ao bairro, inspirado na antiga propriedade da família em Marília (interior de São Paulo), a Fazenda Santo Amaro. O antigo morador, que durante anos ganhou a vida com uma venda de secos e molhados, diz que gosta do bairro, mas tem suas queixas: ‘‘Falta mais posto de saúde, escola de 2º grau e asfalto em algumas ruas’’.
Segundo a Secretaria Municipal do Trabalho e Ação Social de Cambé, porém, a pavimentação asfáltica atinge 98% do bairro, que tem 6.233 habitantes, uma creche, uma escola municipal e três escolas estaduais de ensino fundamental.
O Jardim conta ainda com seis indústrias e 156 estabelecimentos comerciais. Os maiores problemas seriam o desemprego e a falta de segurança.
O Censo Regional feito no ano passado pela Prefeitura de Cambé apurou que na região do chamado Grande Santo Amaro (que compreende os bairros União, Parque São Jorge, Parque Manella, Chácaras Manella, Conjunto Habitacional Castelo Branco, São Paulo, Rejane, Santo André e Monte Castelo, além do Santo Amaro) a maioria dos habitantes tem idade entre 19 e 60 anos; 40% da população tem apenas o primário e quase 60% recebe de 1 a 2 salários mínimos mensais.

PERFIL
Nome: Jardim Santo Amaro
Localização: próximo à divisa entre Londrina e Cambé, cercado pelas rodovias BR-369 e PR-445
População: 6.233 habitantes
Características da população: 40% só fez o primário e maioria recebe de 1 a 2 salários mínimos; aproximadamente 50% dos moradores tem vínculo empregatício com Londrina.Jovens usam as ruas de bairro de Cambé como ponto de encontro
Fotos Josoé de CarvalhoTARDES FESTIVASJovens tomam as principais ruas do Jardim Santo Amaro nas tardes de domingo (acima): ponto de encontro. À esquerda, bares ao ar livre atraem os moradores. À direita, Gincana de Inverno, promovida pela IgrejaRoque Januário, um dos primeiros a construir no bairroMário ‘‘Mineiro’’, do tempo em que Cambé era Nova DantzigOs irmãos Sérgio Antonio e Sonia Regina Tardioli, de família pioneira no Santo Amaro: ‘‘Nem padaria tinha, nossos pais entregam pão numa carroça’’

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