Final da tarde, ônibus lotado. Gente voltando do trabalho, crianças retornando da escola e donas de casa com sacolas de compra viajam no coletivo que faz a linha centro/zona norte de Londrina. Apesar do burburinho das conversas, um operário dorme no acento logo depois do motorista. No banco atrás dele, uma mulher conta, em detalhes, para a vizinha, o assalto que presenciou no ônibus, dias antes, quando também voltava para casa do trabalho.
– O rapaz aproveitou que o ônibus parou no ponto, pegou a carteira de dentro do bolso do homem e saiu correndo pra fora. Todo mundo ficou com cara de bobo.
– É, a violência tá feia, limitou-se a comentar a amiga, um pouco mais jovem que a outra.
Com um jeito de pouco caso, a mais velha continua:
– Mas também, de que adiantaria pegar o ladrão, se nem tem lugar pra colocar tanto marginal. Vai ser mais um pra gente sustentar lá dentro.
– Nós pagamos para eles aprenderem novos crimes na prisão.
– Fora os gastos, quando os presos resolvem se rebelar e destruir tudo.
– Por isso que ninguém quer morar perto de cadeia. Você já viu onde estão construindo a nova Cadeia Pública? É tão longe que agora, com o prédio quase pronto, estão quebranda a cabeça para ver como vai passar rede de esgoto.
Em pé, afastada um pouco das duas mulheres, a professora aposentada Luísa acompanhou a conversa e não pôde deixar de lembrar das histórias contadas pela mãe sobre a infância em Araraquara, no interior de São Paulo. O avô, funcionário da estrada de ferro, cumpria um ritual aos domingos, bastante aguardado pelas filhas. Pela manhã, depois da missa, a família ia para a cadeia visitar os presos. Apesar de desconhecidos e dos crimes que cometeram, eles desfrutavam do pequeno tempo de lazer da família de imigrantes italianos. Só então, as crianças partiam para o mais esperado: beber ‘‘gasosa’’ na mercearia.
O costume continuou na geração seguinte. Quando criança, as férias de Luísa e primos em Campinas, também em São Paulo, tinha um programa diário: levar a sopa, preparada por uma tia, para reforçar o jantar dos presos. A professora lembrou que as crianças eram aguardadas, com expectativa, pelos detentos, que as viam como anjos. Depois da visita, os primos deixavam a cadeia carregando cadeirinhas e outras lembranças construídas pelos presos.
Ao ouvir os comentários despreocupados das duas mulheres no ônibus, Luísa se perguntou quando, nos últimos 50 anos, os detentos deixaram de merecer, aos olhos do povo, não só uma parcela do dinheiro dos impostos, mas um pouco de atenção. O avô mal falava português, mas sabia que podia dar sua parte na recuperação de um preso.
Também se perguntou por que a cadeia deixou de ser um local onde as crianças podiam ir e tornou-se superlotada, imprópria mesmo para a permanência de pessoas que precisam estar privadas da liberdade. Ali mesmo, no ônibus, ela formulou respostas para suas perguntas: desemprego, exclusão social, falta de escola e oportunidades certamente ajudaram no panorama atual. Quando desceu do coletivo, a professora aposentada tinha uma certeza. Já que esqueceu de transmitir os ensinamentos do velho avô para os filhos, tentaria não repetir a falha com os netos.

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