Marcos Zanatta
De Maringá
A doméstica desempregada Gláucia, que mora em um quarto de pensão na periferia de Maringá com uma filha de 11 anos, quer ‘‘alugar’’ a barriga para melhorar de vida. Ela tem 35 anos, está separada do marido há três, tem mais um filho de 4 anos que doou ‘‘com papel passado e tudo’’ para uma cunhada por falta de condições. Gláucia quer R$ 20 mil pela gestação. ‘‘Não bebo nem fumo, nunca tive problemas de saúde’’, diz sem demonstrar chance de arrependimento.
O marido de Gláucia é torneiro mecânico, não paga a pensão da filha há três meses. ‘‘Ele disse que iria procurar emprego no Mato Grosso e nunca mais deu notícias.’’ O aluguel de R$ 100,00 por mês de um quarto com cerca de 20 metros quadrados, com banheiro coletivo, é o maior problema de Gláucia. Ela só trabalha quando aparece serviço temporário e diz que se comprar uma casa vai ficar mais tranquila.
‘‘Desde ontem (terça-feira), já apareceram dois interessados, mas nenhum confirmou nada’’, revelou. Católica ‘‘não praticante’’, Gláucia garante que não vai se arrepender, apesar da pressão da família. Os pais, que moram em Nova Esperança (35 km a noroeste de Maringá), até se ofereceram para pagar o aluguel, mas ela não quer. Com uma ponta de mágoa, ela fala do filho de 4 anos, que é criado pela cunhada. ‘‘A criança que eu vou gerar não será minha. Não vai existir problemas’’, afirma.
A decisão de colocar a barriga para alugar, segundo Gláucia, foi tomada na terça-feira passada, quando ela viu uma mulher de Sarandi oferecendo o útero em um programa de TV. ‘‘Quando vi a reportagem senti que tinha como melhorar a vida de milha filha. Pensei a noite inteira e me decidi.’’
A Folha tentou falar ontem com representantes da Sociedade Médica de Maringá e do Conselho Regional de Medicina, que preferiram não se pronunciar sobre a intenção de mulheres em alugar a barriga. A representante da Sociedade de Ginecologia do Paraná, Neusa Marli Presa, não foi localizada pela reportagem e não retornou as ligações.