Doméstica quer provar que está viva
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de maio de 2001
Sid SauerDe Campo Mourão 
Quase dois anos depois de ter descoberto que era considerada morta e enterrada pela família, a doméstica Elizabete Moreira Duarte, 31, ainda sente o drama de, oficialmente, não ser considerada viva. Não consigo mais tirar a carteira de identidade, queixa-se. Além disso, o túmulo do lote 5 da quadra 255 do Cemitério São Judas Tadeu, em Campo Mourão, continua com o nome dela.
O drama de Elizabete começou em outubro de 1996, quando o corpo de uma mulher assassinada com vários golpes de faca no Jardim da Ordem, em Curitiba, foi reconhecido pela família como sendo o dela. Na época, a doméstica tinha trocado a capital do Estado por Santos (SP) sem avisar a família em Campo Mourão, que a considerava desaparecida.
O corpo da mulher assassinada foi enterrado em Campo Mourão em 11 de outubro de 1996 como sendo Elizabete. Somente três anos depois, quando ela voltou à cidade para tirar a segunda via dos documentos os originais foram roubados em Santos , Elizabete descobriu que era considerada morta pela família, inclusive pela mãe e pelos três filhos.
Hoje, 20 meses após a volta, Elizabete reclama da condição de morta viva. Eu estou sem documentos e deve ter alguma família procurando uma moça que foi enterrada no meu lugar, diz. Ela já conseguiu fazer um novo CPF e até um novo título de eleitor, mas acabou indiciada quanto tentou tirar um novo RG com o mesmo nome.
Fui acusada de estelionato por estar fazendo um documento em nome de uma pessoa morta, conta. A certidão de óbito está com o advogado Levi Queiroz da Paixão, que na época se ofereceu para ajudar a doméstica. Elizabete não sabe se ele entrou com ação para anular o óbito. A Folha não conseguiu falar ontem com Paixão, que passou a tarde em reunião.
A promotora da Vara da Família Fernanda Garcez, disse ontem à Folha que Elizabete deve procurá-la para receber orientações sobre o que deve fazer. A promotora reconhece que uma ação para anular a certidão de óbito é demorada. A pessoa precisa comprovar que está viva e isso é mais complicado do que parece.
O delegado-chefe da 16ª SDP, Roberval Butaccini, afirmou ontem que a polícia de Curitiba deve ter um inquérito sobre a morte da mulher identificada como sendo Elizabete. Como o crime ocorreu em Curitiba, é a polícia de lá que deve seguir com as investigações e tentar descobrir quem está enterrada aqui, explicou o delegado. Segundo ele, o corpo precisa ser exumado. Mas isso tem que partir de Curitiba.


