Doméstica diz que doar é bonito para os outros
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de janeiro de 1998
Lucinéia Parra 
Maringá
A nova lei de transplantes que instituiu a doação presumida de órgãos e tecidos ainda é totalmente ignorada por boa parte da população de Maringá. No 1º Distrito Policial, onde são confeccionadas as carteiras de identidade, 25% das pessoas que solicitam o documento não querem doar órgãos e cerca de 40% demonstram total desinformação sobre a lei.
Quando a gente pergunta se eles querem ser doadores de órgãos, a maioria das pessoas, principalmente as mais humildes, nos olham como se estivessem confusas. A gente percebe que elas não sabem nada sobre a lei. Quando explicamos sobre a doação, a ignorância ainda permanece e há casos que as pessoas pensam que têm que doar os órgãos ainda em vida, afirma o datiloscopista Nivaldo Aparício. Por causa de tanta desinformação, muitos maringaenses estão optando por não ser doadores. Algumas pessoas ficam com medo e, em alguns casos, elas não têm a mínima idéia sobre o aproveitamento dos órgãos em transplantes.
O aposentado Sebastião dos Santos, 83 anos, não tinha ouvido falar sobre a lei de transplantes até o início da semana passada. Quando indagado pela reportagem da Folha se pretendia ser doador de órgãos, ele simplesmente não entendeu o questionamento. Depois disse que não pretende mudar a identidade e aceita ser um doador. Já a doméstica Arlinda Francisca Acrísio, 44 anos, fez questão de incluir na nova carteira de identidade que não é doadora de órgãos e tecidos. Não é por nada, mas quero ir embora como Deus me colocou no mundo. Evangélica, Arlinda garante que a decisão dela não tem nenhuma ligação com a doutrina religiosa. Eu até acho bonito quem aceita doar os órgãos, mas eu não quero não.
Muitas pessoas vêem na nova lei uma violação do direito de livre escolha. Conforme Aparício, há inúmeros casos de jovens e adultos que, apesar de mais esclarecidos, estão solicitando nova carteira de identidade para não ser doadores de órgãos. Eles afirmam que estão fazendo a mudança de propósito porque não concordam com a lei e com a restrição de liberdade. Dizem que, se não tivesse a lei, seriam doadores, garante o datiloscopista do 1º DP.
Para a coordenadora da Central de Transplantes da Região Noroeste, Márcia de Fátima Serra, a lei deveria ter sido precedida de uma ampla campanha de esclarecimento junto à população. Segundo ela, as pessoas estão equivocadas com relação à doação de órgãos, e toda repercussão da lei está levando a população de uma forma geral a acreditar que todos podem ser doadores. Ela explica que, no caso de doação de cadáver, somente as pessoas que tiveram mortes encefálicas concorrem para a doação.
A médica transplantadora Albertina de Lourdes Coelho Cunha, presidente da comissão da Central de Transplantes da Região Noroeste, assegura que a retirada de órgãos de cadáver (após comprovação da morte encefálica) só é realizada após um rigoroso exame que comprove as condições de saúde do doador.


