Doméstica denuncia ex-líder religioso
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sexta-feira, 24 de novembro de 2000
Marta Medeiros De Maringá Especial para a Folha 
A empregada doméstica Marli Miranda Pereira da Cruz entrou com uma representação criminal com pedido de prisão preventiva no Fórum de Mandaguaçu (16 quilômetros a noroeste de Maringá) contra o ex-missionário Alécio Miranda Leal e a mulher dele, Saline Atie Ramos, por cárcere privado, violação de domicílio e exercício arbitrário das próprias razões. A denúncia atinge também o delegado de Mandaguaçu, Valdir Adao Samparo, por abuso de autoridade. O Ministério Público começou a analisar a representação e pediu por ofício explicações ao delegado.
Marli trabalhou como doméstica de Miranda por quase quatro anos. Depois da fuga do ex-missionário em dezembro de 1999, por causa do falso anúncio de arrebatamento (volta de Jesus Cristo à Terra), Marli ficou em Mandaguaçu onde reside com os pais. Em agosto deste ano, ela teria sido convidada por Saline para trabalhar na residência do casal no Rio de Janeiro (RJ).
Como não teria se acostumado na capital carioca, Marli disse que pediu a Saline para voltar a Mandaguaçu. A ex-empregada conta que conseguiu o retorno no dia 28 de setembro, mas que dez dias antes, Saline lhe deu R$ 38 mil em dinheiro com a orientação de que R$ 20 mil deveriam ser depositados em uma conta poupança e o restante para ajudar a família de Marli com compra de móveis e reforma da casa localizada no Conjunto Mutirão, da Vila Guadiana, periferia de Mandaguaçu.
Não achei estranho porque a Saline sempre me tratou como filha e o dinheiro foi como uma indenização pelo tempo que trabalhei com ela, afirmou a empregada. Marli relatou na representação criminal que no dia 24 de outubro foi procurada pelo filho de Saline, Alcyr Naphtali Ramos Filho, a mulher dele, Kesia, e uma pessoa identificada apenas como Charles, todos do Rio de Janeiro. Eles teriam ido até Mandaguaçu atrás do dinheiro.
Conforme Marli, os três invadiram a casa dela, retiraram os móveis e a ameaçaram, afirmando ainda para a família da empregada que ela havia roubado mais de R$ 50 mil no Rio de Janeiro.
Segundo Marli, a violência da invasão e as ameaças sofridas naquele dia levaram a cunhada Elisângela da Silva, grávida de três meses, a perder a criança e a mãe Maria de Jesus da Cruz, a um colapso nervoso. Eles aproveitaram que somos humildes e não entendemos nada de lei para abusarem de nós, contou a empregada doméstica.
Ela disse que, somente depois de cinco dias, os móveis foram devolvidos para a família. No dia 2 de novembro, de acordo com a representação, a violência voltou a ocorrer contra Marli e a família, mas desta vez, com a presença de Miranda Leal e a esposa Saline.
O ex-missionário teria procurado a delegacia de Mandaguaçu e pedido ao delegado Valdir Adao Samparo que tomasse providências porque Marli era acusada de furto no Rio de Janeiro, mas o valor teria aumentado para R$ 90 mil. Marli denunciou que o delegado mandou buscá-la em casa e a manteve detida das 14h50 às 21h20, obrigando-a durante quase todo o tempo a confessar o furto do dinheiro. Também foram para a delegacia o pai de Marli, o aposentado Manoel Pereira da Silva, e dois irmãos, Jair e Alecio Pereira da Silva.
De acordo com Marli, as ameaças do ex-missionário e da mulher dele foram constantes. Até hoje vivo atormentada por tudo que passei, disse a empregada.
A Folha identificou no Rio de Janeiro um telefone em nome do filho de Saline, mas não localizou Alcyr Naphtali. O casal Miranda e Saline não declarou endereço, inclusive para a própria Justiça de Maringá, onde responde a processos. O delegado Valdir Adao Samparo confirmou que foi procurado por Miranda Leal com uma ocorrência do Rio de Janeiro, mas nega as denúncias de abusos contra Marli. Samparo disse que não tem nenhum procedimento aberto na delegacia a respeito do caso, mas afirmou que tem uma declaração assinada por Marli, o pai e os irmãos, confessando o furto de R$ 78 mil no Rio de Janeiro.


