Arquivo FolhaArcebispo de
Londrina mostra
reservas quando
assunto é apariçãoA Igreja Católica acompanha os cultos feitos na zona oeste de Londrina com reservas. Um padre frequenta as orações - por conta própria - e prefere não dar entrevistas à imprensa. Outro padre, Euripes Alves de Oliveira, acompanha o caso à distância. ‘‘Não no sentido de exclusão, mas por prudência’’, explica. Este distanciamento, segundo ele, é para evitar sensacionalismo. ‘‘Mas acompanhamos com carinho.’’
Padre Euripes diz que sempre que pode vai até a casa da jovem para conversar. E também que ela vai periodicamente até a Igreja para falar com ele. ‘‘Nós temos que ir com muita calma. Muitas vezes, as pessoas confundem coisas naturais como se fossem divinas’’, comenta.
O conselho do pároco é que a comunidade siga os ritmos da orientação pastoral da Igreja, participando dos grupos de reflexão e da coordenação das pastorais católicas.
O arcebispo de Londrina, Dom Albano Cavallin, também é reservado quando o assunto envolve notícias de aparições de Nossa Senhora. Ele lembra que Londrina é uma cidade mariana - 80% das paróquias são consagradas à Mãe de Jesus. Cita algumas: Imaculada, Fátima, Lourdes, Boa Viagem, Aparecida. Comenta os grandes eventos religiosos recentes na Cidade, como a romaria ao santuário de Nossa Senhora Aparecida, na vila Nova (área central) no dia 12. Diz que há missionárias londrinenses de Coração de Maria trabalhando em 14 países. E menciona ainda o Santuário de Schoenstatt, no centro da Cidade. ‘‘Tudo isso revela que Nossa Senhora é muito amada, venerada e imitada.’’
Dom Albano Cavallin lembra que é a terceira vez que surge na região notícia de aparições de Nossa Senhora. Em Cambé, no Centro Social Urbano da vila Portuguesa e agora, na zona oeste de Londrina. Por causa disso, ele resolveu escrever uma carta pastoral com 30 mil cópias. Nela, o arcebispo conta que, segundo estudos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mais de 300 aparições foram noticiadas neste século - um número exagerado, na opinião dele. ‘‘É claro que a maioria não é verdadeira.’’
‘‘Os estudiosos dizem que, conforme o contexto social, político, econômico e cultural, sobretudo na passagem dos séculos ou milênios, brotam as especulações do maravilhoso e extraordinário, buscando uma mudança para melhor.’’ Segundo o arcebispo, pessoas precisam aprender a discernir fatos e fenômenos.
Dom Albano Cavallin lembra que ‘‘a experiência’’ tem revelado alguns critérios para discernir aparições, mensagens e cartas. ‘‘Vou falar destes critérios pedindo que os cristãos tenham uma chave para julgar os fatos. Primeiro, as aparições não verdadeiras e de origem mais psicológica aparecem revelando uma visão catastrófica da sociedade e da Igreja. Segundo, seguem com ameaças de castigos iminentes. Terceiro, fazem depois um apelo à conversão. Por fim, dão indicações um tanto matemáticas de meios rigorosos de penitências, jejuns e orações.’’
Diante das aparições verdadeiras ou supostas, a Igreja Católica alerta para o perigo das falsas interpretações. ‘‘Lembremos que, na Bíblia, a verdadeira mensagem de Maria foi nas Bodas de Canaã: ‘Fazei tudo o que Ele vos disser’.’’
Dom Albano pede prudência à comunidade. ‘‘Não se deve recorrer a explicações sobrenaturais quando há explicações por vias naturais. Em segundo lugar, recomendo cuidado, pois, como já diziam os antigos, quem conta um conto aumenta um ponto.’’
O arcebispo também pede que as pessoas façam um estudo dos videntes e suas condições físicas e psíquicas. ‘‘A Igreja pede que a piedade mariana não penda para algo parecido com o Show do Fantástico, onde o que predomina é o maravilhoso e o extraordinário. Visto que Nossa Senhora foi um modelo humilde e simples de esposa, mãe e dona-de-casa, a melhor coisa é a imitação de sua vida - uma obediência ao Evangelho e ao seguimento de seu filho Jesus.’’
Para Dom Albano, frente aos três casos que aconteceram na região de Londrina, o grande desafio da Igreja é proporcionar uma catequese mais aprofundada. ‘‘Resumindo: devoção a Nossa Senhora, sim. Imitação das virtudes de Maria, sim. Maria como professora para seguir Jesus, sim. Aparições maravilhosas, curas milagrosas, busca do fantástico apenas, não’’. Ele aconselha mais: ‘‘Por respeito à ciência e ao oftalmologista, parem de olhar para o Sol porque já aconteceram crueldades e até cegueira por causa destas coisas.’’
(Adriana De Cunto)

mockup