Dois sem-terra são feridos em tiroteio
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de julho de 1998
Alexandre Sanches 
A polícia de Sapopema (132 km ao sul de Cornélio Procópio) instaurou inquérito ontem para apurar responsáveis por tiros disparados anteontem contra um acampamento de sem-terra na Fazenda Cachoeira.
Por volta das 7 horas de anteontem, cerca de 15 homens armados - segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) - dispararam vários tiros contra o acampamento, durante meia hora.
Eles também atiraram em um trator do movimento, que estava na estrada próximo à sede da fazenda. Dois sem-terra foram feridos.
O coordenador do MST em Sapopema, Luiz Alonso Sales, disse que João Valdivino, que diria o trator, foi atingido no ombro, e outro sem-terra, identificado como Francisco, recebeu um tiro de raspão na perna e um outro no dedo de uma das mãos.
Os dois fizeram exames de lesões corporais e prestaram depoimento na delegacia local ontem à tarde. Após o tiroteio, João e Francisco ficaram escondidos em uma mata perto da fazenda.
Cerca de 70 famílias, segundo o MST, estão acampadas na Fazenda Cachoeira desde setembro. O Incra fez avaliação de produtividade na área, mas não divulgou o resultado.
Com a demora do Incra, na segunda-feira os sem-terra resolveram avançar com o acampamento para dentro da fazenda. Anteontem, algumas famílias estavam mudando os barracos quando foram surpreendidas pelos tiros.
Durante a ocupação da fazenda, no ano passado, o proprietário Osvaldo de Almeida Rocha disse que não usaria violência para retirar os sem-terra. Ele informou que a propriedade foi comprada em 1955 e ocupada com pecuária e culturas de feijão, arroz e milho.
Ontem ele foi procurado por telefone pela Folha, mas não foi encontrado. Um funcionário da fazenda disse que Rocha estava no município, mas estaria cuidando de outros negócios.
O funcionário disse não ter presenciado o incidentes envolvendo os sem-terra. Anteontem eu cheguei por volta das 10 horas, vi movimento dos sem-terra, mas não presenciei nada. Aqui não tem ninguém, a não ser eu e outros dois funcionários.
A polícia confirmou que tiros foram disparados contra o trator. Três atingiram o radiador, um o pneu e vários acertaram a lataria.
A promotoria de Justiça da Comarca de Curiúva foi informada sobre o episódio. A preocupação de Luiz Sales, do MST, é que a ação dos jagunços - que ele afirma terem sido contratados pelo fazendeiro - volte a se repetir nas próximas noites.
Temos crianças no acampamento. O duro é que a polícia, mesmo sabendo disso, não toma nenhuma providência, denuncia. Para evitar surpresas, os sem-terra estão se revezando para fazer vigília durante a noite.


