– Tá começando a esfriar. Também, a chuvarada de ontem...
– Pois é. Mas ainda faz calor do meio do dia pra diante.
– E aquela história lá em Brasília, do painel eletrônico? Ouviu falar? Os caras mandaram mexer na lista do pessoal que votou lá no Senado. Agora, que aquela mulher falou firme, isso é verdade.
– Pois é. Ela falou bonito.
– É tanta coisa que nem entra na cabeça da gente. Agora tem a do grampo, lá em Curitiba. Quer dizer que a gente corre o risco de ter o telefonema escutado por outros? Eu só tinha visto isso em filme de tevê. Se bem que eles nem tem interesse de escutar a nossa conversa. O que eles vão querer saber de mim? Se eu falo bem do governo? Isso nunca.
– Pois é.
Seis e meia da manhã. De um dia, aliás, muito bonito. Em um ponto de ônibus de um bairro da zona norte de Londrina, bem de onde é possível enxergar parte dos prédios do centro da cidade, os dois esperam pelo coletivo, que como de costume deve chegar lotado, com gente pendurada na porta. O que fala mais, dispara rajadas de perguntas no meio de afirmações e reticências, parece mais simples. Usa roupas surradas, mas limpas. Carrega a tradicional mochila, que pelo cheiro acondiciona uma marmita.
O que responde com o habitual ‘‘pois 钒, dentro de um conjunto de calça e camisa social, embora calçado com um par de sapatos esportivos, aparenta ser um bancário. Talvez um funcionário público. Mas, oras, que funcionário público sairia de casa às seis para ir ao trabalho? Pelo perfil, poderia ser um contador, dono de um pequeno escritório de contabilidade na região central de Londrina. O certo é que ele é de pouca conversa, enquanto o seu companheiro de ponto de ônibus insiste:
– Assistiu futebol na tevê ontem? Olha que eu não sou de dormir cedo. Mas desmaiei. Também, depois da chuva...
– Pois é, choveu bem.
– Mas deu tempo de assistir um pedaço da novela. Cheguei em casa ontem lá pelas oito. Depois, não vi mais nada. Só de ônibus, lá do serviço até em casa, são mais de 40 minutos.
– Pois é.
E tomam a lotação, como todos os dias, um se apressando para achar um canto confortável dentro do ônibus cheio, onde possa encontrar pessoas que queiram conversar sobre assuntos diversos e outro diminuindo o passo, para se acomodar perto de passageiros que, como ele, seguem para o trabalho calados, como se estivessem prevendo um dia de muitos problemas pela frente. Cena de um começo de dia em Londrina.

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