Embora não tenham o charme e o cartaz dos seus companheiros de rodeio, os peões de lida são trabalhadores indispensáveis para o sucesso da festa e dão duro no batente durante os dias e noites em que trabalham na Exposição Agropecuária de Londrina. Feito pajens, eles ficam antenados 24 horas por dia para que não falte nada para o gado, como água e comida e, como não, um refrescante banho na madrugada, além de manter a limpeza do recinto, recolhendo os excrementos assim que eles caem na palha.
Por isso, neste final de feira, a conversa hoje é com dois desses trabalhadores que, com trajetórias de vida diferentes, nasceram e foram criados na roça, e desde cedo aprenderam a lidar com animais. Na Exposição, um cuida do gado da fazenda onde trabalha há três anos; o outro faz o mesmo num outro rebanho.
A diferença entre os dois é que o primeiro é funcionário estabilizado, mora com a família na fazenda, enquanto o segundo não tem vínculo empregatício com ninguém e, por isso mesmo, está sempre pronto a encarar qualquer bico por uns trocados e umas trocadas de olhares com as moças nas feiras por onde anda. E são muitas. As feiras e as mulheres. É isso mesmo, Ricardo?
''Sei lá, esse negócio de mulher não é comigo não, eu não sou de bagunça, tenho minha família, fico mais no pé do gado, cuidando pra que sempre esteja bem, mulher é aí com o Soneca!'', entrega Ricardo Bezerra da Silva, 35 anos, enquanto Leandro Nascimento dos Santos, o Soneca, 29 anos, dá risada com pinta de quem entende e gosta do assunto.
Ricardo nasceu na Fazenda Santa Helena, em Cornélio Procópio, onde cresceu fazendo ''de tudo'', até guiando caminhão de boi. Quando saiu da fazenda, comprou ''um Chevrolet para transportar carga seca'' e, com isso, acabou levando uma carga de pó de serra na Fazenda Nelore Beka, em Santo Antonio da Platina, no Norte Pioneiro, onde encontrou o seu atual emprego.
Soneca, por sua vez, é da zona rural de Alto Piquiri e trabalhou no sítio com o pai até aos 16 anos quando, já morando em Alta Floresta, no Mato Grosso, como ele diz, ''fiquei com vontade de conhecer Barretos''. Do pensamento ao ato foi o tempo de fazer a trouxa e cair no mundo pra realizar seu desejo.
Ele conta que foram seis anos na estrada, ''fazendo uma coisa e outra, colhi café em Nova Bandeirantes, trabalhei numa carvoaria em Casa Verde, até na colheita da maçã em Joinville eu trabalhei'', conta Soneca, revelando que ''nunca vou esquecer, cheguei em Barretos no dia 5 de novembro de 2002, com 22 anos e, seis meses depois, estava trabalhando na Festa do Peão, não é demais?''
É de um cara desses que a gente precisa: é motorista, dá banho e trata do gado e ainda apresenta o animal na pista. O cara aí no caso é o Ricardo, que aceitou a proposta de emprego na Fazenda Nelore Beka. Já o 'sem patrão' Soneca conta que ''a única vez que trabalhei fixo foi em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, mas foi só por três meses, isso não é pra mim, não, cara!''
Sobre o seu trabalho, Soneca diz que chega às feiras agropecuárias ''oferecendo o serviço pra galera, tomando umas pingas de vez em quando, namorando de vez em quando'', como aquela vez na Exposição de Tupã, no estado de São Paulo, onde conheceu Luciana, sua primeira mulher.
''Eu cuidava de gado à noite e ela também trabalhava lá, começou lavando a minha roupa, coisa e tal, daí acabamos arrumando a mala no mesmo barraco'', conta Soneca, acrescentando que foi trabalhar com a mulher num sítio, onde tirava leite de 28 vacas, e lembrando que ''só fiquei quatro meses, cai fora, voltei sozinho pra Alta Floresta, mas fiquei só cinco dias, voltei de novo pra Barretos, trabalhando pelo meio do caminho e pegando carona de caminhão até lá.''
Ricardo pede para perguntar a Soneca o porquê do apelido. Com a cara marota, o peão de trecho revela que acorda duas vezes durante a madrugada e não esconde que ''tem hora que não dá pra segurar uma cochilada.'' Ao falar sobre o trabalho na Exposição, Ricardo diz que ''o pior de tudo é ficar longe da mulher e dos filhos''.
Já Soneca, olho arregalado e bronqueado com três garotas que se recusaram a tirar uma foto com ele, diz que as mulheres de Londrina ''são muito bonitas, mas são muito metidas, exibidas, andam de nariz empinado e bunda arrebitada; pra conquistar uma mulher aqui o peão tem de ser bom de papo, a mulher aqui é cheia de querer, gosta de peão que tem carro e uma 'pórva' (pólvora = dinheiro) no bolso.''
Num último alerta aos companheiros, ele diz que ''as mulheres de Londrina gostam mesmo é dos meninos de boné pra trás, que usam brinco e calças cheias de bolsos, não querem nada com peão, não'', constata, mas ainda sonha ''encontrar alguém pra uma conversa no meu apartamento vip'', nome que ironicamente dá a sua barraca. Ricardo, enquanto isso, só olha e dá risada da conversa comprida do companheiro de tantas andanças.

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