Elas têm o mesmo nome, trabalham na área de saúde, atuam há cerca de 40 anos em um único emprego e não querem saber de aposentadoria. Dirce Costa Diniz, 59 anos, é secretária e atendente de enfermagem enquanto que Dirce Gomes Martins, 69 anos, é enfermeira. Ambas justificam tanto tempo em um mesmo serviço com uma explicação simples: gostam do que fazem.
‘‘Sempre tive vontade de cuidar dos doentes’’, afirma Dirce Diniz, que aos 14 anos começou a trabalhar na antiga Casa de Saúde São Leopoldo (onde atualmente funciona o Clam) auxiliando as enfermeiras. Algum tempo depois ela passou a atuar como instrumentadora cirúrgica. ‘‘O Dr. Jonas teve muita paciência para me ensinar’’, observa. Dr. Jonas é o cirurgião geral Jonas Faria de Castro, 80 anos, seu atual patrão. Segundo Dirce Diniz, o mais difícil foi aprender os nomes de todos os instrumentos. ‘‘Com o tempo, o médico nem precisava falar o que queria, era só estender a mão que eu sabia qual instrumento tinha que dar’’, afirma. Depois de alguns anos atuando no setor, ela foi convidada pelo cirurgião geral a trabalhar em sua clínica. ‘‘Ele precisava de uma secretária e eu fui para lá. Eu nem sabia datilografia’’, confessa.
Mais do que secretária, Dirce Diniz auxiliava o médico no atendimento a pacientes e fazia pequenos curativos e tratamentos. Com o tempo e a convivência, a relação entre ambos extrapolou a de patrão e empregada. ‘‘Tenho muito respeito por ele, é como se fosse um pai. Pedia orientações quando tinha algum problema e ele também já pediu conselhos’’, afirma.
A secretária revela que na época havia ‘‘comentários maldosos’’ sobre o relacionamento com o patrão. ‘‘Mas eu nunca liguei, o importante era que eu gostava da minha profissão’’, ressalta. O consultório de Jonas Castro, a secretária abandonou apenas por um ano, quando foi para um outro emprego. ‘‘Mas eu não perdia contato. Quando ele precisava de alguma coisa, ligava para mim. Depois, eu pedi para voltar’’.
A relação com alguns pacientes também foi se estreitando. Dirce Diniz conta que muitos deles se tornaram amigos e recorriam a ela quando precisavam de alguma ajuda. Até hoje ela é convidada a trabalhar na casa de pacientes que estão se recuperando de uma cirurgia ou de uma doença.
A secretária, que nasceu em Ourinhos (SP), garante que não enjoou de trabalhar em um mesmo lugar por tanto tempo e acredita ter seguido o exemplo do pai, já falecido. ‘‘Ele foi ferroviário por 40 anos. Ele sempre foi muito trabalhador’’, elogia.
Antigamente, Dirce Diniz trabalhava diariamente no consultório, mas hoje se limita a aparecer lá duas vezes por semana. Nas horas vagas, seu hobby é assistir aos jogos de futebol. ‘‘Adoro futebol’’, resume, afirmando não ser torcedora de nenhum time em especial. ‘‘Gosto do Ronaldinho e do Romário’’.
Atualmente, a secretária se prepara para uma nova fase. O consultório, que sempre funcionou na Rua Senador Souza Naves (área central) está sendo transferido para um prédio na Rua Bartolomeu Bueno (também no centro) e será modernizado. Ao invés das antigas máquinas de escrever, ela terá de saber lidar com computadores. ‘‘Estou com medo, mas acho que vou aprender’’, confessa.
A secretária passeia pelo antigo consultório, mostrando todas as salas e seus detalhes. Ao chegar no arquivo, ela diz que os prontuários de pacientes agora serão transferidos para o computador. ‘‘Aqui temos mais de 35 mil fichas de pacientes’’, relata. ‘‘Quando tiver que sair vai dar uma pontada no coração, é muito difícil deixar isso aqui’’, acrescenta.
Já a enfermeira Dirce Gomes Martins, 69 anos, está acostumada a mudar de prédio, mas não de emprego. Funcionária há 39 anos do Instituto de Patologia do Norte do Paraná, ela lembra que o estabelecimento funcionava inicialmente no Calçadão da Avenida Paraná (área central), depois se transferiu para um outro prédio nas proximidades. Atualmente, fica na Avenida Juscelino Kubstcheck.
Nascida em Iacanga (SP), Dirce Martins chegou a Londrina ainda criança. Cursou enfermagem em Curitiba e na década de 50 foi trabalhar como instrumentadora em uma hospital de Porecatu. No início dos anos 60 voltou a Londrina para trabalhar no Instituto de Patologia. ‘‘Fui gostando e nunca mais saí de lá. Sou muito feliz seguindo esta profissão’’.
Desde o início o trabalho da enfermeira era basicamente a coleta de sangue e outros materiais para exame. Com os anos e a convivência com pacientes, a enfermeira foi ganhando a confiança de muitas pessoas que faziam questão de fazer a coleta com ela, principalmente as crianças. ‘‘Acho que sei lidar com as crianças’’, diz. ‘‘Vou conversando com elas e elas nem percebem que tiro o sangue’’.
Segundo a enfermeira, as crianças dão um pouco de trabalho, mas muitos adultos não ficam atrás. ‘‘Tem gente que chega a fica com medo de tirar sangue. Uns até desmaiam’’, observa. ‘‘Mas toda profissão tem seus espinhos’’, conforma-se.
Às vésperas de completar 40 anos em um mesmo local de trabalho, Dirce Martins revela que ficará no emprego somente neste ano. Sem contar detalhes do motivo da saída, ela diz que depois continuará trabalhando no período da tarde em um outro laboratório. Parar de trabalhar? ‘‘Quem sabe mais tarde, daí eu quero viajar e descansar um pouco’’.Mário CesarEntrosamentoDirce Diniz: ‘‘Com o tempo, o médico nem precisava falar o que queria, eu já sabia qual instrumento tinha que dar’’Lucilia Okamura

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