Londrina
A fila de espera pela doação de órgãos que podem ser transplantados é grande em todo o Brasil. Em Londrina, renais crônicos que aguardam há anos por um rim que lhes devolva a saúde aguardavam com esperança a entrada da nova lei em vigor. Mas este sentimento de otimismo foi transformado em desânimo logo nos primeiros dias do ano, em consequência do grande número de pessoas que têm alterado os documentos de identificação para evitar a doação após a morte.
Luiz Claudio Hilgenberg, 21 anos, estudante de Processamento de Dados, é renal crônico e faz hemodiálises há oito anos. ‘‘O pior é a falta de liberdade imposta pela doença e sessões de diálise. Eu não posso viajar, não posso trabalhar, tenho que tomar remédios constantemente, é muito complicado’’, comenta, lembrando que já recebeu um rim em transplante - da sua mãe, Yara - há nove anos, mas houve rejeição.
‘‘No começo, a nova lei me deu uma grande esperança. Pensei que ela fosse nos ajudar a encontrar os doadores mais rapidamente. Mas as famílias estão com medo do comércio de órgãos. A reação popular à lei foi muito negativa, o que me desanimou bastante’’, afirma Hilgenberg. ‘‘Acho que faltou uma grande campanha de esclarecimentos, antes da entrada da lei em vigor. Foi uma falha do governo.’’
Josoé de CarvalhoDiagnósticoClaudia Gheller, renal crônica: ‘A reação negativa à nova lei está ligada ao egoísmo das pessoas’
Cenilda Eckel, 44 anos, dona-de-casa, passa por três sessões semanais de hemodiálise há 22 anos. Casada, com uma filha, ela reclama da falta de liberdade - ‘‘Não posso viajar para cidade que não tenha clínica bem equipada’’ -, dores musculares e outras complicações impostas pela doença. ‘‘Também passei rápido do otimismo ao desânimo com a nova lei. Estou muito preocupada com a repercussão negativa que ela teve junto à população. As pessoas estão com muito medo, não entendem direito o que é a morte encefálica’’, afirma.
Ela já passou por três transplantes, o último há cerca de três meses. Nos dois primeiros houve rejeição e a perda dos órgãos. Ainda não há a segurança de que o rim transplantado recentemente funcionará com a regularidade necessária. Ela passará por uma biópsia nas próximas semanas para a comprovação do sucesso do transplante ou da rejeição ao órgão recebido. Na opinião de Celina Eckel, faltaram mais esclarecimentos sobre a importância da doação. Também faltou informar sobre a precisão no diagnóstico da morte encefálica. ‘‘Agora, vai demorar para a saúde pública recuperar o espaço perdido com esta reação negativa à nova lei. É uma grande pena.’’
A pedagoga Claudia Ribas Gheller, 30 anos, casada, passa por sessões de hemomodiálise desde 1989. Ela já recebeu um rim transplantado em Curitiba que funcinou bem durante três anos, mas depois perdeu-se por rejeição. ‘‘Esta reação negativa à nova lei é uma questão ligada à nossa cultura e ao egoísmo das pessoas, que pensam que a necessidade de receber um órgão doado nunca vai ocorrer com elas e seus familiares. Isso pode ser um grande engano.’’

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