Doença rara virou acidente de trânsito
Doença rara virou acidente de trânsito
Os casos de falsificação de laudos de necropsia do Instituto Médico Legal (IML) anexados no dossiê vão de 92 a 99. Um deles foi verificado in loco pela reportagem da Folha. A doméstica Noemi dos Santos, de 19 anos, morreu no dia 22 de junho de 99 com porfiria intermitente aguda e insuficência respiratória. O corpo dela não chegou a ser levado para o IML de Curitiba. Ele teria saído do Hospital Evangélico, onde a mulher morreu, diretamente para uma funerária de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. Ela estava com uma doença rara e sofreu um ano e meio com isto, declarou a dona de casa Jorgina Marins dos Santos, de 54 anos, mãe de Noemi.
No entanto, um laudo datado de 22 de junho de 98, ou seja, um ano antes da morte da doméstica, afirma que Noemi dos Santos morreu por insuficiência respiratória devido a uma parada cardíaca em consequência de uma colisão. Uma certidão falsa foi registrada no Cartório Rauen, em Curitiba. Ela nunca sofreu qualquer acidente de carro, declarou a mãe, que diz que nunca foi informada sobre a certidão falsa. Um dia um homem e dois rapazes vieram no meu portão e me fizeram umas perguntas sobre acidente de trânsito. Não me disseram de onde eram e nunca mais voltaram, disse ela.
A dona de casa contou que no dia do sepultamento da filha teve que assinar diversos papéis na funerária. Pode ser que eu tenha assinado alguma procuração. Não sei. Não li os papéis, informou ela. Dias depois ela recebeu a proposta de doação de uma cesta básica e teve que dar toda sua documentação, a da filha e a do marido para a suposta entidade doadora. Recebi a cesta básica, mas nunca desconfiei de nada. Apenas quando alguns médicos legistas me procuraram é que tive conhecimento da fraude, afirmou. Jorgina dos Santos mora na Vila Perdiz, em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, nunca casa simples. Não desprezei a cesta básica porque não sou orgulhosa. Não sabia que iria colaborar para uma fraude, argumentou, não posso imaginar como alguém é capaz de uma fraude destas. Eles são piores do que ladrões porque roubam mediante a mentira e o sofrimento dos outros.
Como o caso da doméstica, diversos outros são relatados no dossiê. Um deles é o do lavrador José Galdino, de 77 anos, vítima de hipertensão arterial sistêmica, conforme o laudo de necrópsia 623/99 do IML. No entanto, outro laudo foi confeccionado sob o número 2123/98, dando como causa da morte broncopneumonia devido ação contundente em atropelamento. O detalhe é que a morte do lavrador ocorreu no dia 17 de maio de 99. O laudo diz que ele teria morrido em 98.
Os casos de falsificação de laudos de necropsia começaram a ser investigados no final de novembro pela Comissão de Segurança Pública da Assembléia Legislativa. Na época, o deputado Ricardo Chab (PTB), presidente da comissão, disse que a previsão era a de que a fraude rendesse cerca de R$ 30 mil por dia aos falsificadores. O caso também está sendo apurado pelo Ministério Público, Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Civil. (L.P.)





