Curitiba - Informações que estiveram em sigilo por mais de três décadas vão estar ao alcance do público em apenas alguns cliques. São dossiês, fichas pessoais, imagens e depoimentos da época do regime militar que, em breve, estarão disponíveis na internet.
Os mais de 2 mil dossiês sobre instituições paranaenses como sindicatos, centros acadêmicos, jornais, empresas, entre outros, produzidos no período da ditadura militar poderão ser consultados online ainda este ano. Eles fazem parte do Projeto Memórias Reveladas, do Centro de Referência das Lutas Políticas do Brasil, integrante da Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo federal, que dá o apoio finaceiro para a realização dos trabalhos.
O projeto surgiu após a determinação da Casa Civil do governo federal, em 2006, de que os ministérios e estatais encaminhassem suas informações sobre o período da ditadura militar ao Arquivo Nacional.
O levantamento e organização dos documentos paranaenses estão sendo feitos pelo Arquivo Público estadual, com base no banco de dados da extinta Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), órgão criado para controlar movimentos políticos e sociais contrários ao regime no poder. Ao final da descrição, reorganização e digitalização do acervo -concentrado entre os anos 1964 e 1985- ele será publicado em um portal virtual junto com levantamentos de outros estados.
Além dos arquivos acumulados pelo poder público, acervos privados e de pessoas físicas, publicações periódicas, produções culturais, depoimentos, entrevistas, testemunhos e narrativas biográficas, entre outros materiais, integrarão o levantamento. O prazo para que os detentores dos documentos façam a organização e revisão deles encerra-se em agosto, mas a ideia é que o material já seja disponibilizado ao público na medida em que seja entregue à coordenação nacional.
No Paraná, a maior parte é de documentos administrativos, como ofícios e relatórios, além de fichas pessoais com fotos. De acordo com a coordenadora da divisão de documentação permanente do Arquivo Público estadual, Tatiana Dantas Marchette, é possível encontrar, nos textos, alertas sobre o comportamento de uma pessoa ou uma manifestação, mas nada muito revelador. ''O pesquisador vai perceber muita coisa nas entrelinhas. O resultado principal será disponibilizar um número excepcional de fontes fidedignas para consultas'', avalia a historiadora.
A longo prazo, o projeto incluirá, também, material produzido para esse fim, como entrevistas novas com ex-presos ou perseguidos políticos. Igrejas, associações, comissões e instituições de ensino são alguns dos colaboradores particulares do acervo. Para Tatiana, a importância de um projeto como esse se dá na preservação das fontes, na divulgação maciça das informações e na digitalização dos arquivos, que evita o manuseio dos frágeis originais.
A reunião desses papéis pode ajudar, por exemplo, a determinar o local onde uma pessoa desapareceu, comparando registros dos estados por onde ela passou. Hoje, o Arquivo Público já recebe pedidos de pessoas que querem comprovar documentalmente uma prisão, para fins de indenizações.
Entre os arquivos descobertos no Paraná, está uma apostila contendo um manual de interrogação e tortura que ensina métodos de como reconhecer suspeitos, abordar pessoas e conseguir informações.

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