Kraw PenasIsilda: ‘‘Eu trabalhava por produção numa gráfica, mas fui afastada e só serei contratada se tiver a carteira’’Isilda Marques Pereira, de 31 anos, esteve por dois dias seguidos, desde às 6 horas, enfrentando a fila da DRT de Curitiba para fazer a Carteira de Trabalho. Sem conseguir obter uma senha para ser atendida, ela continuava no prédio até as 10 horas de quinta-feira tentando ocupar a vaga de algum desistente. ‘‘Eu trabalhava por produção numa gráfica, mas fui afastada e só serei contratada se tiver a carteira’’, diz. Isilda mudou de Telêmaco Borba para Curitiba, com o marido e os dois filhos, em dezembro de 1997, e se instalou na Cidade Industrial. Para ela, o documento é sinônimo de sobrevivência. ‘‘Eles disseram que podem esperar pela carteira ou protocolo até segunda-feira’’, conta. ‘‘Aí vou poder voltar a ajudar no orçamento’’, diz, esperançosa.
Gente como Isilda está fazendo crescer a procura pela Carteira de Trabalho, que, segundo a DRT, cresceu 22% de janeiro a março. Para o economista, Daniel Passos, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), esse aumento na procura por novas carteiras se explica porque o desemprego vem afetando cada vez mais os chefes de família, levando pessoas que não estavam no mercado de trabalho a providenciar documentação para se habilitar a um emprego.
Leandro TaquesMarcelo Terres chegou na fila às 3 horas: ‘‘É muito castigo’’
Segundo Passos, entre outubro de 1996 e outubro de 1997, a Pesquisa de Emprego e Desemprego do Dieese apontou aumento de 13,2% no fechamento de postos de trabalho para os chefes de domicílo, enquanto em outras categorias a taxa de aumento foi de 7%. Enquanto isso, o Dieese registrou no mesmo período um crescimento de 17 mil vagas (1,9%) no mercado de trabalho, enquanto a população economicamente ativa no Estado aumentou 3,4%. O déficit é de 18 mil vagas.
Esses números refletem o que está acontecendo com o mecânico de automóveis Gonçalo Ribeiro dos Santos, de 56 anos. Oficialmente desempregado, ele montou sua oficina nos fundos de casa e, para aumentar a renda familiar, está encaminhando o filho Vilmar, de 15 anos, para fazer a Carteira de Trabalho. Gonçalo é um homem de sorte: o ônibus chegou tarde ao Centro no primeiro dia dia e ele não conseguiu a senha, mas no segundo conquistou a ficha de número 105. ‘‘Mesmo chegando às 6h30, fomos dos últimos a conseguir a vaga, mas isso merece comemoração’’.
Marcelo Terres, de 23 anos, candidato ao primeiro emprego, chegou na fila às 3 horas da madrugada para não correr o risco de ficar sem senha. Sonolento e irritado, ele protestava: ‘‘É uma palhaçada ter de madrugar desse jeito. É muito castigo perder uma noite de sono e até correr o risco de ser assaltado na rua. Quem quer trabalhar não merece ser tratado assim.’’ (G.V.)

mockup