Imagem ilustrativa da imagem Doces lembranças de uma pioneira de Londrina
| Foto: Ricardo Chicarelli - Grupo Folha

Ruth Nauer Kernkamp lembra com detalhes da época que conheceu Londrina: "Quando cheguei não tinha terminal. Era uma calçada com uma casinha e logo em seguida terra"

Ibiporã - A rotina é intensa. Todos os dias acorda às 6h para tratar dos cachorros, cuida das flores espalhadas pelos espaços da casa e por volta das 9h começa a preparar o almoço. Nos outros períodos do dia a movimentação não é diferente. Aos 91 anos, Ruth Nauer Kernkamp é exemplo de vitalidade e disposição, carregando como poucos em sua memória a história de Londrina e dos pioneiros que pelas terras vermelhas passaram. Atualmente é moradora de Ibiporã (Região Metropolitana de Londrina), e construiu família na segunda maior cidade do Paraná.

Filha de pais suíços, é a segunda de quatro irmãos. Nasceu em São Gotardo, situado no Triângulo Mineiro, mudando-se para Caieiras, na Região Metropolitana de São Paulo, tempo depois, em razão do trabalho do pai. “Meus pais vieram para o Brasil após o fim da Segunda Guerra Mundial em busca de serviço, já que lá estava muito difícil. Em Minas Gerais meu pai comprou uma colônia, onde plantava. Até um dia em que um senhor queria montar usinas de energia, ficou sabendo que meu pai era eletricista e o contratou”, conta.

Já em São Paulo conheceu aquele que seria seu marido, o alemão Erwin Kernkamp. “A família dele chegou em Londrina em 1929 (ano do surgimento de município). Tive contato o Erwin e ele me trouxe para o Norte do Estado para vivermos juntos. Tinha 21 anos na época, era década de 1940. Casamos em Londrina e fomos morar em Heimtal (patrimônio), onde ele e a família tinham terras”, cita. Os alqueires foram dados aos Kernkamp em troca do serviço de abertura de ruas na cidade que começava a se formar. “Passei a lua de mel tirando leite de vaca que eram criadas nos alqueires”, brinca.

Trocando um lugar já consolidado estruturalmente, em Caieiras, encontrou na pequena Londres muito café, mato e caminhos a serem desbravados. “Quando cheguei não tinha terminal. Era uma calçada com uma casinha e logo em seguida terra. Nem carros circulavam, eram charretes. Apenas a avenida Paraná, onde atualmente é o Calçadão, contava com rua asfaltada. O restante era terrão. Onde hoje fica a rua Prefeito Hugo Cabral era uma mata fechada em que ficava a casa do Mister Thomas”, relembra com detalhes, como se o tempo não tivesse passado.

CAMPO
Mãe de três filhos – dois homens e uma mulher – e avó de quatro netos, todos rapazes, viveu a maior parte da vida no sítio, no Heimtal, junto com o marido, que faleceu em 1994. “Dei a luz de dois filhos em casa e apenas um nasceu no hospital. Foram décadas dedicadas ao campo. Agora estou de idade, porém continuo trabalhando, mas em outras atividades”, destaca. Há alguns anos, Ruth chegou a receber prêmio por ser a lavradora mais antiga de Londrina que ainda atuava.

Após a morte do marido passou a viver com os filhos, só indo ao sítio da família em época de colheita para ajudar. Em 2008 vendeu as propriedades, onde hoje estão instalados condomínios. Há cerca de 20 anos está em Ibiporã. “Meu marido ajudou a construir a igreja do Heimtal, que ficava no nosso terreno. Como não tinha igrejas ao redor, dividíamos o espaço para celebrações alemãs e católicas”, diz. Com um dos filhos dispondo de sítio em Guaravera, costuma ir até o distrito com frequência para manter o contato com o campo.

AMOR PELA COZINHA
Matriarca, carrega em sua essência o prazer pelo cozinhar, principalmente comidas típicas da Alemanha e Suíça. “Minha mãe fazia geleias e fui vivendo e aprendendo. Quando é para os meus netos faço bastante quantidade e variedade”, orgulha-se. Entre os pratos com mais destreza para fazer estão strudel, geleias diversas, pães, biscoitos, panetone e tortas. Nas festividades de fim de ano prepara praticamente todos os quitutes servidos na ceia.

Para quem pede não dá a receita, faz questão de ensinar passo a passo, com o objetivo da pessoa interessada aprender sozinha, apenas com suas orientações. Guarda um caderno com dezenas de indicações de pratos, escritas a própria mão. “Se só passo a receita e a pessoa faz e dá errado vai falar que é culpa minha. Então transmito o conhecimento para ela aprender. Tem receita que preciso ver no caderno, entretanto as geleias e doces estão todas bem guardadas na memória”, aponta com bom humor e dando algumas dicas de como produzir biscoitos alemães para a reportagem.

Outra paixão é a leitura. Faz caça palavras diariamente e sempre está finalizando um livro para iniciar outro. Tendo habilidade para falar línguas nacionais da Alemanha e Suíça, gosta de nadar, destreza que adquiriu quando criança, por incentivo do pai. “Enquanto tiver vida, vou levando tudo isso”, afirma, com um sorriso no rosto de quem ainda tem muito a oferecer.

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