DOCE VENENO
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de fevereiro de 2005
Percival de Souza 
Os sabores são variados, as calorias também, e resistir ao prazer ou à tentação é difícil. No caso de uma família dolorosamente destruída na cidade de Campinas (SP) um médico, a mulher e uma das filhas, Layla, 17 anos; a caçula, de 15, escapou a causa da morte foi um atrativo doce mousse de chocolate. Arsênico, antimônio e bismuto faziam parte da receita. O médico Hudson da Silva Carvalho tinha 46 anos. A mulher, Thelma Almeida Migueis, 43.
O caso é exclusivo para bons detetives. Uma investigação cientificamente conduzida não é assunto só para filmes. Às vezes, infelizmente, é. Neste domingo de carnaval, uma frase de Oscar Wilde cai bem: ''A máscara diz mais do que a face''. Porque a máscara encobre o rosto, como se pudesse criar a garantia de uma identidade oculta. Usar máscara sugere que se pode deixar de ser o que realmente é. Um disfarce. Milhões de mascarados andam por todos os cantos fora dos dias de carnaval, como se fossem intérpretes camuflados de si mesmos.
O caso de Campinas, intrigante, é repleto de máscaras. A família saiu para almoçar. De volta para casa, a menina de 15 anos que sofre de bulimia fez o doce de chocolate, serviu-o e... foram morrendo, aos poucos, sangrando pelos olhos e pelas fezes. O médico e a mulher, ao amanhecer. Pela madrugada, a moça mais velha. A caçula escapou. Ela levou um pedaço de mousse para a avó paterna, que mora perto. Mas quem comeu o doce foi a empregada, que também passou muito mal. Ela relatou o fato à polícia, que ao fazer vistoria na casa encontrou tudo limpo. A louça, lavada. O que restou do doce a maior parte estava jogado no lixo.
A sinopse, que você acaba de ler, sugere interpretações e palpites, talvez direcionados. Não é o nosso caso, aqui. Concretamente, existe a prova de que houve envenenamento, e não intoxicação. O cenário é o interior da casa e o ingrediente principal, por enquanto, é o doce. Pode ter sido um acidente, pode ter sido intencional, pode haver um quinto elemento na história. Os bons detetives que o caso exige não podem confundir (como atualmente se faz por toda parte) investigar só com depoimentos no cartório. É muito mais: da perícia, necropsia e exames toxicológicos surgem informações que permitirão o desdobramento da investigação. Nos romances de Agatha Christie, o rol de suspeitos fica num circuito restrito. O arguto detetive Poirot sempre chega lá. A perícia, como já se disse, pode ser excelente prova. Porque ela é o olho que vê, a mão que apalpa, a trena que mede, a arte que materializa a verdade. Na necropsia, os corpos contam (sim, eles falam!), para peritos competentes, o que lhes aconteceu e como. Pela toxicologia, podem ser obtidos os resíduos que vão ajudar a decifrar o mistério da morte. A investigação é fascinante. O tempo que passa é a verdade que foge. Você também pode ser o detetive.


