DOCE PODER - Produção de açúcar mascavo dá estabilidade no Norte
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terça-feira, 10 de outubro de 2006
Widson Schwartz<br> Especial para a Folha 
Mário França da Luz, de 64 anos, é um exemplo da força do açúcar mascavo (orgânico e integral) em pequenas e minipropriedades de Jaboti e municípios próximos, no Norte Pioneiro de Jacarezinho. Dono de apenas quatro hectares (menos de dois alqueires), ele deixou de ser bóia-fria e hoje arrenda sete alqueires, suprindo a própria microusina, numa atividade que envolve quatro dos seis filhos. A renda líquida já atingiu R$ 50 mil reais/ano:''melhorei 300%'', afirma.
O cálculo não é minucioso, mas parece verossímil diante dos bens adquiridos por ele desde 2001: casa de alvenaria, a microusina, trator e implementos. E um poço artesiano. Mário e os filhos, que já produziram 45 toneladas de açúcar, pretendem chegar a 80. ''Carro, por enquanto não quero'', ele diz. Antes, quer modernizar a microusina, dotando-a de uma caldeira, acessório fundamental para diminuir o custo de produção e melhorar a qualidade.
Trata-se de objetivo comum a quase todos os 53 sócios da Cooperativa Agropecuária de Produtos Orgânicos da Terra, Cooper Terra, sede em Jaboti, onde estão 14 de 35 microusinas. Conforme projeção do técnico em agropecuária da Cooperativa, Kleber Siqueira, os associados vão produzir, até janeiro, 900 toneladas de açúcar. Mas a Cooperativa já assegurou a venda de 1.300 toneladas, devendo adquirir, de produtores no noroeste paranaense, a diferença. O faturamento em perspectiva é de R$ 2,2 milhões, pela cotação de R$ 1,75 o quilo. Segundo Fabiano dos Santos, responsável por um dos setores da Cooperativa, este ano o preço caiu em comparação ao da safra anterior, R$ 1,89, porque a produção cresceu.
O rendimento médio de açúcar por alqueire de cana, entre os associados, é de 13 toneladas. Pelos dados da Cooperativa, a produção de mascavo envolve 175 famílias e outras 10 no setor de padronização.
O açúcar mascavo dá estabilidade às pequenas propriedades, melhorando a qualidade de vida, diz a presidente da Cooperativa, Maria Iracema Fernandes dos Santos, também produtora. Ela conta que, quando o marido morreu, no final de 1993, ficou com a responsabilidade de educar os filhos. Incentivada por uma assistente da Emater, arrendou três alqueires, passo inicial rumo à produção. Até hoje, nunca se arrependeu e os filhos puderam frequentar cursos superiores.
À época, o projeto do açúcar em Jaboti estava no começo. Um dos pioneiros e hoje dissidente da Cooperativa, Milton Ribeiro afirma que muitos fracassaram porque não mantiveram as propriedades diversificadas. E é preciso valorizar o trabalho familiar, para reduzir custos. Os irmãos Jânio e Ricardo Moraes, operando uma usina maior, dão um exemplo de racionalidade. Sucessores numa propriedade familiar diversificada em que o café já foi o esteio, eles começaram a produzir o açúcar em 1994 e, recentemente, uma fração de melado. A propriedade vai bem. Da industrialização da cana, ''sobram 10%'', renda líquida, calcula Ricardo.
O conceito de produto orgânico está na origem das microusinas. Entretanto, das 899,41 toneladas que a Cooper Terra vai receber até janeiro, só 298,51 classificam-se como tal, por serem provenientes de propriedades certificadas pelo Instituto Biodinâmico de Desenvolvimento (IBD), com sede em Botucatu (SP). O restante é açúcar integral ou artesanal.
Iracema Fernandes diz que o mercado ''é muito restrito e exigente'', e a permanência de pequenos e miniprodutores tem sido possível graças ao cooperativismo. A padronização é feita pela Cooperativa, atendendo às exigências dos compradores. A Cooperativa tem a sua própria marca, Sabores da Terra, e clientes no Japão, embora não esteja exportando ultimamente.


