Dobra número de mortes por intoxicação
James Alberti
De Curitiba
As intoxicações e mortes no campo cresceram mais de 100% nos últimos 13 anos embora o número de toneladas de agrotóxicos consumidos no Estado tenha sido reduzido em um terço de 20 anos para cá. No final da década de 70, o Paraná utilizava 64 mil toneladas de veneno. Atualmente usa entre 18 mil e 20 mil toneladas, segundo dados da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater).
Apesar da redução, as mortes aumentaram significativamente. Em 1986 foram registrados 585 casos de intoxicação, com 30 mortes. Dez anos depois, ocorreram 658 casos e 81 mortes. No ano passado, foram registrados 599 casos e 66 mortes, pouco mais que o dobro que em 1986, ano em que a Secretaria de Estado da Saúde iniciou as estatísticas. O assunto chamou a atenção do vereador Mário Celso Cunha (PFL), que formulou ofícios cobrando maior fiscalização da secretarias da Saúde do município e do Estado. Para o vereador, há necessidade de conscientizar os agricultores. São pessoas sem condições, que são pegas de surpresa, acredita.
O agrônomo Udo Bublitz, da Emater, não pensa assim. Responsável pelo esclarecimento de agricultores, o agrônomo afirma que o problema é cultural e que muitos agricultores não usam equipamentos de proteção por resistência. Eles acham desconfortável. É como no trânsito. Todo mundo sabe que não pode passar sinal vermelho ou beber e dirigir, mas..., diz. Conforme ele, a Emater tem orientado anualmente cerca de 160 mil trabalhadores. O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), da Federação de Agricultura do Paraná, orientou outros 44 mil agricultores desde sua criação, em 1993. O Estado tem 400 mil agricultores.
Segundo a bióloga Gisélia Rubio, chefe da Divisão de Zoonoses e Intoxicação da Secretaria de Estado da Saúde, 55% dos casos têm causa profissional, 33% são suicídios (veja texto ao lado) e 12% são acidentes. Nas causas profissionais estão incluídas as intoxicações que ocorrem quando o agricultor está manuseando o veneno (uso sem equipamento ou de acordo com as orientações dos técnicos). Nas causas acidentais estão as intoxicações por descuidos (crianças que brincam com embalagens de agrotóxico ou agricultores que usam recipientes domésticos para guardar veneno e voltar a usar os recipientes).
Um dado grave, conforme Gisélia, é que 12% dos intoxicados em casos profissionais são crianças com menos de 14 anos. Por lei, as crianças estão proibidas de trabalhar com venenos agrícolas. Criança tem que estar na escola, diz a bióloga. Ela mesma, no entanto, reconhece que na chamada agricultura familiar as crianças ajudam a fortalecer o orçamento da família, o que torna díficil a discussão do problema.No ano passado foram registrados 599 casos e 66 mortes por contaminação. Em 1986, 585 pessoas se intoxicaram e 30 morreram
Arquivo FolhaPROBLEMA CULTURALMuitas contaminações acontecem porque os agricultores não usam os equipamentos de proteção por acharem desconfortável





