Doação de órgãos: um assunto difícil
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segunda-feira, 25 de junho de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Nos corredores dos hospitais existe um grupo de profissionais que trabalha em silêncio, e que surge nos momentos mais delicados para tentar transformar a dor em um gesto de amor. São os captadores de órgãos, enfermeiros de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), psicólogos e médicos que, diante dos casos de morte encefálica, se encarregam de dar a triste notícia à família e, momentos mais tarde, entrevistá-la sobre a possibilidade de ajudarem a salvar outras vidas. Na semana passada 76 destes profissionais concluíram oficialmente na Santa Casa de Londrina o 1º Curso de Capacitação em Educação Permanente no Processo de Doação de Órgãos e Tecidos, com o objetivo de aprimorar a qualificação para este tipo de abordagem.
Para o enfermeiro de uma das UTIs da Santa Casa, Djalma Fernandes Vieira Filho, de 42 anos, o curso ajudou a compreender melhor as reações das famílias, tanto nos casos em que a doação de órgãos é autorizada como nos casos em que as famílias não autorizam o procedimento. ''Eu já compreendia um pouco os sentimentos das famílias, mas agora me sinto melhor preparado para entender as diferentes reações'', esclarece Vieira Filho, que trabalha em UTI há três anos e, desde então, segue o protocolo que inclui as entrevistas com as famílias.
''São dois momentos muito difíceis. Primeiro quando temos que comunicar às famílias sobre a morte, depois quando vamos falar sobre a doação. Entre uma situação e outra nós esperamos os familiares se acalmarem e se mostrarem em condições de tomar a decisão'', explica o enfermeiro. Ele acredita que a dificuldade do momento é intensificada pelo fato da nossa cultura não falar muito sobre morte. ''Estamos acostumados a falar só sobre vida.''
Há sete anos trabalhando em UTI, a enfermeira Rosemeire Ávila de Oliveira, de 43 anos, já perdeu a conta de quantas famílias entrevistou sobre a possibilidade de doar órgãos para transplantes. ''São situações muito delicadas e únicas'', diz. Entre os momentos mais difíceis, porém, ela cita os casos que envolvem crianças e jovens. ''Para nós, fazer a entrevista chega a ser mais difícil que dar a notícia da morte, porque muitas vezes já temos como certo este desfecho (falência do encéfalo). Já a doação de órgãos é um assunto que pouca gente aborda'', argumenta Rose, como é conhecida no hospital.
Segundo ela, toda conversa é direcionada a fazer a família entender que pode aliviar o sofrimento de outra família. ''É um gesto que depende de solidariedade. E solidariedade todos temos, o que falta é exercitá-la.'' Rose parece ter um dom todo especial para este trabalho. Tanto que, segundo ela, cerca de 70% das abordagens que faz resultam em respostas positivas. ''Acho que é porque informamos a família sobre cada etapa vivida pelo paciente. Falamos sempre a verdade, sem tirar a esperança''.


