A doação de órgãos é cercada de muitos mitos, o maior deles é relacionado à morte encefálica. Esta morte, em que o paciente está ligado a aparelhos que mantém o funcionamento do corpo, permite que os órgãos sejam retirados com boa qualidade. Ao mesmo tempo, o procedimento é difícil de ser aceito pelas famílias por conta do desconhecimento.
Muitas pessoas acreditam que a vida está no coração, ou seja, creem que quando o coração para a vida acaba. Porém, o médico neurologista e membro da Câmara Técnica de Morte Encefálica dos conselhos Regional e Federal de Medicina, Carlos Eduardo Silvado, explicou que a vida está no cérebro. ''Quando o coração para, cessa o envio de sangue para o cérebro, por isso a pessoa morre'', explicou. De acordo com ele, a morte encefálica é a comprovação de que o cérebro não recebe sangue e não funciona mais. ''O corpo é o veículo, mas o cérebro é o piloto que dá as ordens. Sem piloto o veículo não funciona'', completou o médico, que ontem esteve em Londrina dentro da programação do Dia Nacional de Doação de Órgãos.
De acordo com o médico, que é de Curitiba, para chegar à conclusão de morte encefálica são realizados vários testes. O primeiro é um exame de imagem - tomografia ou ressonância magnética para comprovar que existe uma lesão cerebral irreversível. ''Quando existe esta certeza, tratamos o paciente com o máximo de recursos que temos durante cerca de seis horas a fim de tentar reverter este quadro'', disse. Depois desta etapa são realizados alguns testes para identificar se realmente o tronco cerebral não responde aos estímulos. Então é feito um teste de apnéia onde os aparelhos são desligados para identificar se a pessoa realmente não tem condições de respirar sozinha. Nas próximas seis horas são realizados outros exames para concluir a situação e outro médico assume o paciente e repete todos os testes para chegar à confirmação final.
Segurança
Silvado disse que estes exames são parte integrante do atendimento para identificar o momento em que o tratamento deve ser interrompido, porque qualquer coisa que seja feita após a morte encefálica não fará mais diferença. ''O corpo fica no respirador e o coração continua batendo, por isso é difícil para as famílias aceitarem'', declarou. Ele disse que não pode haver erro nesta etapa e que o processo é interrompido se ocorrer qualquer dúvida que coloque em xeque a conclusão.
''Após o atestado de óbito há dois caminhos, ou a família opta pela doação dos órgãos ou desligamos o respirador e esperamos o coração parar de bater'', afirmou. Ele disse que em geral a família leva um tempo para aceitar o que realmente aconteceu, por isso ele propôs que as pessoas discutam o assunto. ''É importante que se fale sobre isso, esta conversa dá segurança na hora que for preciso tomar uma decisão'', alertou.
Coma
O médico explicou a diferença entre morte encefálica e coma. ''No coma o nível de consciência é variado, parte do cérebro está lesada mas a parte que funciona mantém a vida e regula o funcionamento do corpo'', disse. Ele afirmou que também existe uma diferença entre o estado vegetativo persistente. ''São pessoas que estão inconscientes, têm uma qualidade de vida muito ruim, mas parte do cérebro continua funcionando. São estes pacientes que têm histórias de ''acordar'' depois de muito tempo'', definiu.
Para Silvado, o aumento de transplantes no Brasil depende de melhor conscientização das pessoas e ampliação da estrutura dos hospitais. ''O processo de melhoria precisa ser permanente. É necessário trabalhar para não perder nenhum possível doador. Não ficaremos satisfeitos enquanto houver gente na fila'', disse. Ele disse que o ato de doar órgãos é dar para a sociedade o que a pessoa não precisa mais. ''Se não for doado vai apodrecer'', concluiu.

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