Londrina tem o índice mais baixo de doações de órgãos no Estado. Quando comparados os dados computados em 2016 pelas quatro centrais regionais de transplante do Paraná, a taxa de doações no município é de 26,80%. Das 194 notificações registradas na macrorregião de Londrina de janeiro a dezembro do ano passado, apenas 52 se converteram em doações. Em Curitiba, que detém o índice de doações mais elevado do Estado, foram 432 notificações e 185 doações, o que corresponde a uma taxa de 42,82%. Em segundo e terceiro lugares estão Cascavel (44,52%) e Maringá (38,86%), respectivamente. Vencer a recusa familiar em doar os órgãos dos pacientes com diagnóstico de morte encefálica ainda é o principal obstáculo para aumentar as doações.

Entre as 142 notificações que não se converteram em doações na região de Londrina em 2016, 51 foram pela não concordância das famílias em autorizar a doação dos órgãos. "A gente tem trabalhado para fixar e profissionalizar as equipes nos hospitais. Curitiba conseguiu avançar bastante neste aspecto", avaliou a chefe da Central de Transplantes da Regional Norte, Ogle Beatriz Bacchi de Souza. "Não é só uma tarefa técnica, tem que acolher, esclarecer e conduzir a família a essa decisão. Requer treinamentos e experiência nesse aspecto. Embora estejamos fazendo isso há muitos anos, ainda temos que avançar."

Uma das dificuldades, aponta Ogle, é acabar com a fragmentação no processo de notificação e abordagem das famílias. Hoje, há equipes de profissionais para cada etapa do trabalho. "Os hospitais que conseguiram efetivamente esse modelo (não fragmentado) têm resultados melhores", destacou. "A gente tem boa notificação. Hoje, não fica ninguém sem diagnóstico de morte encefálica, mas a conversão das doações ainda não é ideal." A central chefiada por Ogle abrange 13 hospitais que atuam no diagnóstico de morte encefálica e a doação de múltiplos órgãos e 22 hospitais que trabalham na orientação sobre doação de órgãos.

Imagem ilustrativa da imagem DOAÇÃO DE ÓRGÃOS - Vencer recusa familiar ainda é desafio



GARGALO
Cirurgião cardiovascular do Incor e integrante da Comissão de Remoção de Órgãos da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), José Lima Oliveira Junior enumera vários fatores que contribuem para que um transplante não aconteça, entre eles, os cuidados tomados com o potencial doador, a confirmação da morte cerebral, a infraestrutura hospitalar e a ocorrência de parada cardíaca, mas o maior gargalo, atesta o médico, é a negação familiar.

Levantamento da ABTO aponta que 43% das famílias brasileiras entrevistadas pelas equipes de abordagem não autorizam a doação dos órgãos. "Na Região Sul a recusa é mais baixa, menos de 30%, mas na Região Nordeste as taxas chegam a 90%. As discrepâncias regionais são muito grandes. Podemos levar em consideração os valores culturais, mas o que também ocorre nessas regiões é uma falta de comunicação adequada. Mais ao Norte e no Nordeste, as dúvidas em relação à doação de órgãos e ao transplante são mais gritantes, o que faz com que as pessoas recusem quando abordadas", afirmou Oliveira Junior.

"A gente tem trabalhado a parte do acolhimento no hospital. A família recusa porque não foi bem orientada, bem instruída", avaliou a diretora da Central Estadual de Transplantes do Paraná, Arlene Badoch, ressaltando que a família não pode ser culpada por se recusar a fazer a doação. "A família diz não porque não conhece direito o processo. Cabe ao hospital orientar."

Segundo a diretora, um dos principais motivos que levam os brasileiros a não autorizarem a doação é o desconhecimento em relação ao desejo do familiar com diagnóstico de morte encefálica. "Por isso nós trabalhamos muito as campanhas de orientação, mas a família decide, a família é a base. O hospital tem que estar preparado para fazer o acolhimento, respeitar as fases do protocolo e a doação é um processo de aceite."

De acordo com a ABTO, em 2016 o Paraná realizou 1.841 transplantes de córnea, rim, fígado e coração, mas ainda há 2.534 pacientes na fila, sendo 2.228 deles à espera de um rim, 170 de um fígado, 52 precisam de córneas, 50 de um coração, 28 aguardam um transplante de pâncreas/rim e seis de pâncreas.

HUMANIZAÇÃO
Melhorar as estatísticas, afirma Arlene, é resultado do trabalho de humanização dos hospitais. "O hospital que é humanizado, que atende bem a família, explica, orienta e demonstra (o que representa a doação de órgãos), a família acaba identificando e conhecendo todo o processo. O acolhimento é sinônimo de humanização e quando a gente fala em acolher, todas as pessoas do hospital devem estar envolvidas", explicou. "No sistema estadual de transplantes, trabalhamos diuturnamente cursos para ensinar como fazer o acolhimento, como se dá a má notícia, damos cursos e desde 2011 temos as comissões intra hospitalares que são treinadas e trabalha maciçamente esse projeto. A gente não vai trabalhar a humanização na hora da abertura do protocolo (de morte encefálica)."

Oliveira Junior lembra que o Brasil tem um número grande de potenciais doadores, com alto índice de diagnóstico de morte encefálica envolvendo pacientes bem mais jovens do que o observado nos Estados Unidos e nos países europeus, por exemplo. Aqui, é bem mais significativa a quantidade de vítimas de armas de fogo, acidentes de trânsito e outras formas de violência. "Temos muitos potenciais doadores, mas a taxa de aproveitamento dos órgãos é de 29%. Uma grande parte dos doadores se perde por falta de infraestrutura ou recusa familiar", destacou. "Temos mais de 30 mil pessoas aguardando um órgão e ao mesmo tempo estamos desperdiçando órgãos que poderiam ser doados. Temos um grande potencial para aumentar o número de transplantes."

Para 2017, além de intensificar os treinamentos, Ogle planeja uma pesquisa para identificar os motivos que levaram as famílias contatadas no ano passado pela equipe de abordagem a não autorizarem a doação. "Vamos definir uma amostragem e entrar em contato com as famílias que se recusaram a doar os órgãos de seus parentes no ano passado. Por enquanto sabemos que o desconhecimento da vontade do paciente ainda é um motivo muito forte, mas vamos comprovar essa informação com um estudo", adiantou a chefe da Central de Transplantes da Regional Norte. Para isso, a expectativa é firmar uma parceria com alguma universidade local. (leia mais na pág.2)

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