DOAÇÃO DE ÓRGÃOS - Um coração cheio de esperança para Thiago
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segunda-feira, 03 de abril de 2017
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

No último dia 19 de janeiro, Thiago Cordeiro Orzechowski, de 24 anos, recebeu um novo coração. O transplante trouxe a ele a esperança de voltar a ter uma vida normal, sem as limitações impostas pela miocardiopatia hipertrófica, doença congênita diagnosticada quando ele tinha 12 anos de idade. A mesma cardiopatia que havia matado precocemente o seu pai, com apenas 28 anos de idade.
Desde que Thiago iniciou o tratamento, os médicos comentavam que futuramente um transplante poderia ser necessário, mas ele sempre conviveu bem com a doença. Há cerca de um ano e meio, no entanto, o problema cardíaco começou a evoluir muito rápido e fazia Thiago passar muito mal, com dificuldades para fazer até pequenas caminhadas. "A evolução da doença afetou não só a questão biológica, mas me afetou psicologicamente também", contou. Clinicamente, não havia mais o que ser feito e a única alternativa era o transplante de órgão.
Apesar do medo da cirurgia, do pós-operatório e de toda a fase de recuperação, Thiago decidiu tentar. "Tinha dias em que eu acordava bem e em outros, não. Eu nunca sabia como ia acordar amanhã. A busca com o transplante foi por estabilidade."
Em agosto os médicos foram comunicados da decisão, em setembro começaram os trâmites para a cirurgia e no início de dezembro Thiago entrou na fila do transplante pela Central de Transplantes da Regional Norte. Ele vivia com a mãe em Guarapuava (Centro) e os dois decidiram mudar-se para Londrina. "Larguei minha casa, meu trabalho e vim sem nada para cá, sem conhecer ninguém para esperar aqui a doação do órgão. Nos mudamos no dia 26 de dezembro", disse a mãe, Patrícia.
Ela imaginava que o chamado para a cirurgia demoraria alguns meses, "em maio ou junho". Thiago acreditava que as chances de aparecer um doador seriam maiores em algumas datas, como Ano Novo e Carnaval, quando a ocorrência de acidentes aumenta. Perto do Ano Novo, o rapaz diz ter ficado bastante apreensivo. Mas foi em meados de janeiro que ele recebeu a ligação com a notícia tão aguardada. Era uma quinta-feira e Thiago e a mãe estavam no supermercado. "A expectativa pela cirurgia é angustiante. Foi difícil trabalhar essa expectativa", relembrou Patrícia.
Thiago recebeu o coração de um jovem de Maringá, morto aos 27 anos, vítima de acidente de trânsito. Hoje, pouco mais de dois meses após o transplante, ele se recupera bem e já está retomando as atividades de que gosta, como sair com os amigos e tocar guitarra. Em Guarapuava ele tinha uma banda.
"Quando soubemos que ele iria receber um coração, nós pedimos aos familiares e amigos que orassem muito pela mãe do rapaz que morreu e doou o órgão para o Thiago. Eu orei muito por ela porque sei que para uma mãe perder um filho é muito difícil. Soubemos que ele era universitário, tinha uma vida inteira pela frente, mas foi a atitude dessa mãe que proporcionou a vida para mim e para o Thiago. Hoje, a minha esperança é ver meus netos, é ver o Thiago profissional, porque ele tem faculdade, é a esperança de ter vida", resumiu Patrícia. "Eu vivi 12 anos com o risco iminente da morte, agora o Thiago vai poder caminhar, correr, andar de bicicleta, coisas que ele não pôde fazer quando criança. Foi uma emoção grande quando fizemos uma ecocardiografia do novo coração e vimos que ele está perfeito", emociona-se a mãe.
Para incentivar outras famílias a doarem órgãos, Patrícia tenta conseguir ajuda para produzir um vídeo para ser veiculado nas redes sociais contando a história de Thiago. "Falta muita informação sobre doação de órgãos. A mídia poderia explorar mais esse assunto. Dentro da própria classe médica nós nos deparamos com muitos tabus. Teve um médico que me alertou que o transplante seria um risco muito grande e colocou todos os pontos negativos da cirurgia, sem falar dos aspectos positivos. É preciso mudar isso."
Índice no PR supera média nacional
O crescimento observado no número de doadores de órgãos no Brasil em 2016 ainda não foi suficiente para aproximar o País dos índices registrados em nações onde a doação de órgãos está em destaque. Em 2016, segundo pesquisa feita pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), as doações aumentaram 3,5% ante 2015, o que corresponde a 14,6 doadores efetivos a cada milhão de habitantes (pmp). Na Espanha, o primeiro colocado em uma lista que elenca os 46 países com melhor desempenho em doações, o índice é de 39,7 pmp, seguida por Croácia (39,0) e Bélgica (32,4). O Brasil ocupa a 27ª colocação. No Paraná, o índice de doações supera a média nacional. Com um crescimento de 42% na comparação com o ano anterior, o Estado atingiu em 2016 a marca de 30,9 doadores efetivos a cada milhão de habitantes.
"Temos que melhorar a infraestrutura nos hospitais de todas as regiões do País. Só assim conseguiremos aumentar o número de transplantes de forma importante. Potenciais doadores surgem todos os dias e sai mais barato se puder fazer o transplante na mesma região ou no mesmo estado do receptor. Mas nos últimos anos houve retração, com fechamento de serviços", ressaltou o cirurgião cardiovascular do Incor e integrante da Comissão de Remoção de Órgãos da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), José Lima Oliveira Junior.
O médico lembra, no entanto, que na Região Sul a situação ainda é bem mais confortável, considerando os números do Paraná, com 30,9 doadores efetivos a cada milhão de habitantes, e Santa Catarina com 36,8 pmp. Na Região Sul e Sudeste a questão da doação de órgãos é melhor trabalhada e os números estão bem acima da média nacional. "No Brasil, há 30 mil pessoas aguardando um órgão sólido e boa parte delas vai morrer na fila", alertou o médico. (S.S.)


