Era 1971 quando Pedro, um adolescente de 17 anos, desembarcou em Ibiporã, vindo com a família de Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo, em busca de prosperidade nos cafezais do norte paranaense. Para ele, o mais velho de cinco irmãos, aquela migração era ''uma coisa maluca'', pois estava se mudando para perto de Londrina, cidade afamada, grande, populosa para a época.
O rapazote mal podia imaginar que 14 anos depois ele estaria em um lugar que, para quem não conhece, é muito mais ''maluco'' do que a ''Pequena Londres''. Depois de ver a sua vocação sacerdotal amadurecer na terra vermelha, Pedro Zilli, filho de dona Terezinha e seu José, foi ordenado padre pelo Pontifício Instituto Missões Exteriores (Pime) e trocou o conforto de Ibiporã por Bafatá, em Guiné-Bissau, na Costa Ocidental da África.
A missão do jovem padre consistia em nada menos do que anunciar o cristianismo em um país com mais de 70% da população muçulmana e que só alcançara a independência de Portugal em 1974. ''Quando cheguei lá, estava preparado para uma situação terrível, de imensa pobreza. De fato, não tinha muita coisa, mas nunca nos faltou o básico'', explica.
Para quem cultiva a imagem dos muçulmanos como um povo intolerante a outras religiões e sempre disposto a conflitos, a realidade encontrada pelo então padre foi outra, de amizade entre os seguidores de Alá e os crentes em Jesus. ''Com os muçulmanos encontrei um diálogo de vida. Não esperamos que eles se tornem cristãos, mas já aconteceram alguns casos de conversão. Nosso objetivo é fazer o anúncio do evangelho àqueles que seguem alguma Religião Tradicional Africana (RTA), como a Umbanda'', comenta.

Diocese africana
Em 2001, quando Bafatá ganhou o status de diocese - a segunda do país depois da capital Bissau -, Zilli havia retornado para o Brasil e estava trabalhando em um seminário em Brusque (SC). Para a alta cúpula da Igreja Católica ele era a pessoa ideal para estar à frente da mais nova diocese africana. Foi nomeado bispo e recebido em Bafatá, que tem 550 mil habitantes - dos quais apenas 35 mil católicos -, como um filho que volta para casa. Dom Pedro Zilli se tornava o primeiro bispo brasileiro a ser designado para trabalhar fora do Brasil.
Mais uma vez atravessou o Atlântico. Na bagagem, uma missão ainda mais complicada: pastorear um povo que dois anos antes havia amargado uma sangrenta guerra civil, contar com apenas três horas por dia de energia elétrica vinda de gerador a diesel e um péssimo serviço de telefonia fixa. Além disso, os indicadores sociais de Guiné-Bissau colocam o país no posto de um dos mais pobres do mundo e a Organização das Nações Unidas (ONU) faz acusações de que o antigo entreposto de escravos do século 15 hoje é um entreposto do narcotráfico.
Mas nada disso assustou ou assusta o missionário. Em vez de lamentar, ele trabalha para melhorar as coisas. E está conseguindo. Hoje, já tem 12 horas de energia elétrica por dia e colocou no ar uma rádio de sua diocese. ''Agora há também painéis solares, que são uma bênção'', comemora. Também incentiva a visita de brasileiros ao lugar e conquistou a simpatia de muitos benfeitores do mundo todo, inclusive do Brasil e, é claro, de Ibiporã. A telefonia fixa continua péssima, mas o celular pega bem. Internet, só a 500 quilômetros de distância, na capital.
Dos italianos, conquistou a doação de aparelhos de raio-x e ecografia, além de treinamento para que os nativos os saibam operar. Junto com leigos brasileiros, mantém a Casa das Mães, que atende grávidas em situação de risco. Teve que aprender os dialetos do país que, apesar de ter a língua portuguesa como oficial, também se comunica em pelo menos outras 15 línguas étnicas. ''Sou um brasileiro que traduz a conversa de guineenses'', diverte-se. Também inaugurou uma ''filial'' da Pastoral da Criança, que já ''está pegando'', segundo ele.
A economia guineense está em francalhos - um euro vale 650 francos, a moeda local -, a pesca e o caju são as vedetes financeiras. ''As cidades ficam quase o tempo todo no escuro e não oferecem nada, tudo vem do campo'', lamenta. Mesmo assim, ele é otimista sobre a Guiné-Bissau. Diz que é tempo de esperança.
De férias em Ibiporã, onde recebeu a reportagem da FOLHA, já se prepara para voltar e tocar adiante o trabalho. ''Algumas pessoas me questionam se não é loucura voltar para lá. Mas sou feliz por ser missionário''.

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