Ele não nasceu nobre, ao contrário de seus irmãos mais novos dos Altos do Igapó. Cravado na região mais valorizada da Zona Sul na atualidade, o Jardim Cláudia surpreendeu quem não esperava muito daquele loteamento ermo, que pedia uma chance para crescer e aparecer em meio a puro mato na década de 60.
Hoje, o bairro exibe casas de alto padrão, praças e ruas bem cuidadas, e o que é melhor: conciliou o crescimento com o espírito de convivência. ''A unidade é uma característica forte do Jardim Cláudia. Acho que é porque ele fica num canto, fechado entre ruas sem saída. Os moradores acabam ficando mais próximos'', relaciona o empresário José Luiz Massaro, 46, presidente da Associação de Moradores dos Altos do Igapó (Amai).
Dentre os pouco mais de 10 bairros da microrregião que a Amai representa, Massaro escolheu o Cláudia para iniciar a vida de recém-casado, há 23 anos. Àquela época, lembra, o bairro ainda era marginalizado, por ser distante do Centro. Com a inauguração do maior shopping da cidade e o crescimento da Avenida Madre Leônia Milito, veio a valorização. ''Quando mudamos para cá havia muitos terrenos vazios, e cada nova construção vinha com um padrão melhorado'', recapitula o empresário.
Entre as modernas residências de alvenaria, contudo, o jardim guarda pitadas do passado. Morador mais antigo do bairro, Ermiro Vicente da Silva, 77, vive na mesma casinha de madeira construída há quatro décadas. ''Vim para cá no dia 17 de maio de 1964. Era tanto mato que você não enxergava rua. Aqui só tinha a gente e os proprietários do loteamento'', conta o aposentado, que foi parar no Cláudia quase sem querer, convencido por negociadores imobiliários.
''A notícia aqui era ruim. Diziam que eu era besta, que esse lugar não ia para a frente. Mas o bairro foi se enchendo de casa e eu fiquei aqui, perdido no meio dos ricos'', brinca. Pernambucano, Silva criou na casa os dez filhos que teve com sua esposa e conterrânea, Maria. As crianças cresceram, mudaram-se, mas o casal permaneceu no imóvel, de onde só sai ''quando Deus chamar''.
Com uma parte do fundo de vale do Ribeirão Cambé dentro de seus limites, o bairro ainda tem espaço também para recantos bucólicos. Cercada dos novíssimos edifícios da Zona Sul, a família de Manolo Otero, 24, tem o privilégio de residir em uma chácara. ''Isso é espetacular. Nasci aqui e acho esse bairro excelente. O único problema é segurança'', ressalva.
O presidente da Amai confirma a queixa e diz que os moradores aguardam ansiosos a instalação do 6º Distrito Policial (DP) na região para se sentir mais protegidos. A insistência nesse pedido é uma das mostras do caráter participativo dos habitantes do bairro, ressaltado por Massaro. ''Quando qualquer reivindicação aflora, todo mundo se une. São pessoas que têm esclarecimento sobre cidadania'', orgulha-se.
Tal consciência ajuda a explicar a beleza singela do bairro, que não reside apenas em suas construções, mas na limpeza das ruas, na farta arborização e até na delicadeza com que os cidadãos se tratam. Morador antigo e fã confesso de uma ''cachacinha'', José Emílio Honório, 55, o ''Testa'' - uma das figuras folclóricas do Jardim Cláudia - diz que, ''se fosse hoje em dia'', jamais teria poder aquisitivo sequer para alugar uma casa nas redondezas. Apesar do distanciamento econômico, afirma que nunca foi discriminado e que é tratado como amigo por todos. ''Aqui ninguém briga'', garante.

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