Os canteiros de obras que enchem as cidades de novas casas e prédios dependem cada vez mais de mãos antes acostumadas com a lida da terra. A migração de trabalhadores rurais - já classificada como ''apagão no campo'' - muda rapidamente a realidade de dois dos mais importantes setores da economia brasileira: a agricultura e a construção civil.
A situação é tão grave que a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) anunciou a realização de um estudo, este ano, para levantar a real situação da carência de mão de obra no campo. A pesquisa também deverá medir a qualidade desta mão de obra, indicando o nível de escolaridade dos trabalhadores dentro das propriedades. Algumas iniciativas, como as do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), buscam na qualificação uma forma de desacelerar o êxodo.
Mas enquanto este tipo de ação não surte os efeitos desejados, regiões como a de Londrina, onde a construção civil apresenta crescimento vertiginoso, sobram exemplos de quem abandonou as lavouras para tentar a sorte em meio ao concreto. Um deles é o servente de serralheria Augusto Antonio de Lima, 31 anos. Ele cresceu em fazendas da região, vendo o pai trabalhar nas lavouras de café e, até a juventude, achou que o seu destino também estava no campo.
Há alguns meses Lima decidiu abandonar a rotina que enfrentou durante 10 anos nos canaviais. Hoje engrossa o batalhão de homens e mulheres que vivem de construir casas e prédios. ''Aqui o salário é melhor e o trabalho mais leve'', garante. Ele reconhece que a rotina é puxada - acorda todos os dias às 5 horas e chega de volta a Cornélio Procópio (Norte), onde mora com a mulher e dois filhos, às 19h20 -, mas garante que vale a pena. ''Conheço muita gente que fez o mesmo.''

Mudança
Rogério Henrique de Oliveira, 32 anos, é outro que optou pela mudança. ''Trabalhei 10 anos no corte de cana, mas cansei. Tinha muita dor nas costas'', justifica o servente, que viaja mais de 200 kms todos os dias, desde São Sebastião da Amoreira (Norte). Ele afirma que as mudanças na legislação que normatiza o cultivo de cana com o objetivo de acabar com as queimadas - e, consequentemente, apressam a mecanização - também pesaram. ''Logo a gente iria perder o trabalho como cortador e a única opção seria ir para dentro da usina'', argumenta Oliveira, revelando que já pensa em se mudar para Londrina com a família.
No Norte do Paraná, a migração de trabalhadores das lavouras para os canteiros de obras tem como principal destino a grande área onde é erguido o Residencial Vista Bela, em Londrina, um dos maiores loteamentos do programa federal de habitação Minha Casa, Minha Vida. No total, a obra que está mudando o cenário da Zona Norte da cidade emprega 1,2 mil trabalhadores diretos e indiretos. Diariamente, cerca de 400 trabalhadores vêm e voltam em 12 ônibus de municípios da região.

Transporte
De acordo com o departamento de recursos humanos da Construtora Terra Nova, uma das integrantes do pool de empresas responsáveis por erguer as 2.712 unidades habitacionais do residencial, a maioria dos serventes de pedreiro contratados é de ex-boias-frias, mas não há levantamento que indique, exatamente, quantos eles são. Todas as manhãs saem ônibus lotados de cidades como Bela Vista do Paraíso, Uraí, Rancho Alegre, Sertanópolis, Cornélio Procópio, Santa Mariana, Nova Fátima, São Sebastião da Amoreira, Assaí, Sertaneja e Leópolis. E se ainda aparecerem interessados em serviço, de outros municípios, serão empregados. ''Temos como contratar até 1,5 mil trabalhadores'', informa o engenheiro que coordena a obra, José Antônio Bahls.
Segundo dados do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Norte do Paraná (Sinduscon), os canteiros de obras de Londrina absorvem atualmente sete mil trabalhadores formais, e estima-se que outros cinco mil trabalhem informalmente no setor. O presidente da entidade, Gerson Guariente Junior, explica que a demanda por funcionários deve se manter em ritmo menos acelerado nos próximos anos, mas ainda assim com um crescimento de 6% a 7% ao ano, o que equivale a aproximadamente 400 novas vagas de emprego por ano. ''Nos últimos dois anos aceleramos os convênios firmados para qualificar mão de obra, na tentativa de suprir a necessidade de novos trabalhadores. Embora a procura tenha diminuído por parte das construtoras, o deficit ainda existe'', reforça.

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