Era o ano de 1976. Em um simples rancho de madeira, no Distrito de São Luiz, Zona Sul de Londrina, nascia Marcelo, filho de Marlinda, já conhecida pelo gosto de cozinhar e cozinhar bem. Na época, não havia transporte para chegar ao hospital. E assim, em casa, ele veio ao mundo, sem dar trabalho. Sua mãe teve a percepção que essa seria sua natureza, sempre pronto. Ele concorda. Gosta de coisas imediatas e dispensa qualquer esforço para garantir seus objetivos.
Tempos depois sua família migrou para São Paulo. A busca por uma vida melhor impulsionava dona Marlinda a apostar na cidade grande. O menino tinha cinco anos e a mãe levava, além dele, mais cinco filhos pequenos. Sozinha, ela começou a fazer pães e doces para o sustento das crianças. Marcelo era o mais empenhado em ajudar na produção e vender os quitutes. ''Era a responsabilidade e o amor por minha família que me impulsionavam.'' Nessa fase o menino era conhecido como o ''padeirinho''.
Aos 12 anos, ele deixou os estudos e foi trabalhar em restaurantes paulistas. Passou de garçom a auxiliar de cozinha. O som das panelas era música aos seus ouvidos, o aroma das fervuras e o colorido das receitas contribuíram para sua opção pela cozinha, não apenas como profissão, mas como identidade.
Foi então que conheceu Elke Maravilha. Mais que uma figura icônica, ele guarda da artista a lembrança de uma conselheira, que pautou sua vida com bons exemplos e direcionamentos. Ela o contratou para trabalhar no restaurante de sua família, na Avenida Ibirapuera, em São Paulo. Os primeiros traços do bom cozinheiro começaram a ser contornados.
Em São Paulo, a família de Marcelo Alves residia no Jardim Angelo. ''Era o pior lugar para uma vida social na cidade. Perdi mais de 25 colegas por causa das drogas'', lembra. Mesmo com os problemas de segurança no bairro, ele abriu lá seu primeiro restaurante, onde com a mãe e os irmãos serviam almoço e pizzas no jantar. Além da família, 12 pessoas eram empregadas no estabelecimento. Na época ele tinha 18 anos.
Decisão radical
Marcelo Alves conta que sempre quis aprender mais. Em meio a temperos e ingredientes, criando receitas e combinação de sabores, ele tinha ansiedade em aprender outras línguas. Hoje domina italiano, francês, espanhol, inglês e tcheco.
Essa ansiedade em ir além levou o cozinheiro a tomar uma decisão radical. ''Pensar a vida longe da minha família era dolorido mas, mesmo assim, decidi sair do Brasil. Queria aprender. Queria ser bom naquilo que gostava de fazer.'' Ele vendeu tudo o que tinha e embarcou rumo a Londres, na Inglaterra.
Dona Marlinda arrumou sua mala. Coração apertado, olhos com lágrimas, mas uma certeza, o filho era bom no que fazia e merecia uma chance de mostrar isso para o mundo. ''Eu chorava muito, como ainda choro. Mas, através dele, os irmãos, primos e amigos tomaram coragem para enfrentar o exterior e garantir uma vida melhor'', afirma a mãe.
Em Londres, Marcelo não conhecia ninguém, não sabia da grande diferença climática e passou muito frio quando chegou. Não entendia nada do inglês e foi percebendo que o dinheiro que havia levado acabaria logo. Porém, estava feliz.
Com a ajuda de um dicionário ele foi se comunicando e conquistando amizades. Em um dos raros telefonemas da época, sua mãe passou o contato de uma mulher que era conhecida da família e que trabalhava no exército britânico. Ele viajou 300 quilômetros, investindo suas últimas economias. No exército ofereceram apenas um serviço para Marcelo, na cozinha. A amiga da família facilitou as coisas e ele foi contratado. ''Fiquei um ano, até descobrirem que eu não tinha visto. Eu nem sabia o que era isso. Imagine a inocência.''
Moet & Chandon
O outro emprego foi com empresários italianos, que possuíam uma rede de restaurantes em Londres. O cozinheiro brinca, ''Some tutti amici - eles pagavam pouco e exigiam muito trabalho, mas éramos amigos''. Foi então que soube de um concurso para chef de cozinha da Embaixada do Brasil em Londres. Entre 80 candidatos, foi o escolhido. ''Era a oportunidade de mostrar o que havia aprendido nos cursos que fiz. Gastronomia de verdade. Fazer as coisas de forma bem-feita.''
O brasileiro se viu cercado de personalidades e glamour. Ele se deslumbrava ao ver sua culinária servida em cristal Baccarat e acompanhada de champagne Moet & Chandon. ''Estava cercado por uma realidade muito superior e fui obrigado a cair de cabeça nesse universo. Precisava aprender técnicas diferentes. Acompanhar as tendências do mercado mundial. Isso exigiu muito de mim, mas construiu a pessoa que sou hoje.''
Em 2008, Marcelo percebeu que estava insatisfeito novamente. Queria mais. Queria a França. ''Como havia aprendido a me virar, encarei tudo novamente. Soube que a Embaixada em Paris precisava de um chef de cozinha e fariam uma seleção. Fui o escolhido e até hoje estou aqui'', conta.

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