Moradores acusam prefeito de não pagar empréstimos contraídos há mais de dois anos em nome da empresa da família Pavan
Fotos Marcos NegriniSEM RETORNO Miguel Antonio, a esposa e o filho mostram promissórias assinadas por Alcir Pavan, irmão do prefeito; credores se dizem desesperados; cerealista (ao lado) que pertence ao prefeito e a Alcir está desativada

De Maringá


Moradores de Santa Fé (47 quilômetros ao norte de Maringá) acusam o prefeito Anésio Pavan (PSDB) de não devolver dinheiro que teria emprestado há mais de dois anos. Alguns comerciantes afirmam que chegaram a emprestar até R$ 40 mil e estão desesperados com o atraso do pagamento. O prefeito se defende e diz que o empréstimo foi feito à empresa Alcapa, uma cerealista de propriedade dele e do irmão, Alcir Pavan.
O comerciante Miguel Antonio de Castro Israel, 56 anos, diz que já perdeu a conta de quantas vezes procurou o prefeito e o irmão dele para receber o dinheiro que emprestou à família Pavan em setembro de 1997. Na época, afirma Israel, o prefeito ofereceu 4% de juros ao mês. Atraído pelo juro alto, Israel emprestou o dinheiro que era fruto da venda de um apartamento localizado em Maringá. ‘‘Eu ia usar o dinheiro para construir uma casa para meu filho. Como o prefeito pediu o dinheiro e disse que devolveria quando a gente necessitasse, eu e minha mulher resolvemos emprestar’’. Nos primeiros meses, lembra Israel, o pagamento dos juros foi feito regularmente, mas a partir de abril de 1998, a dívida começou a acumular.
Atualmente, a dívida soma R$ 104.229,65. A família concordou com a proposta do prefeito de baixar o juro para o mesmo índice da caderneta de poupança, o que reduziria a dívida para R$ 59.813,92. Mas o pagamento não aconteceu. ‘‘Como está difícil de receber a gente já falou para ele (prefeito) pelo menos devolver o capital que nós emprestamos, e mesmo assim ele fica enrolando e não dá nem um centavo’’, desabafa Israel.
O comerciante Kyoshi Naido, 57 anos, diz que ‘‘esperança é a última que morre’’. Ele emprestou R$ 20 mil e calcula que tem para receber cerca de R$ 30 mil calculados com os juros. ‘‘Emprestei minhas economias que pretendia usar na construção de uma loja própria’’, contou. Do total emprestado, Naido recebeu R$ 500,00. ‘‘Ele só pagou os primeiros meses, depois acabei emprestando mais dinheiro e nunca mais ele pagou’’. O pior, continua Naido, ‘‘é que o prefeito não gosta de ser cobrado’’. ‘‘Eu vou falar com ele (prefeito), mas ele pede para eu falar com o filho e o filho fica bravo comigo. Age como se a obrigação de pagar fosse minha’’, reclamou.
Uma senhora que pediu para não ser identificada – tem medo de sofrer represálias – deu um depoimento emocionado. Ela vendeu a casa onde morava por R$ 9 mil e emprestou o dinheiro ao prefeito, porque esperava juntar uma quantia maior com os juros de 4%. Assim, compraria uma casa maior. Mas não recebeu nenhuma parcela do dinheiro emprestado há quase dois anos.
A vendedora Áurea Carrara, 35 anos, também se diz lesada pelo prefeito. Ela afirma que emprestou R$ 20 mil há cerca de cinco anos e que, descontadas algumas parcelas pagas no início pela cerealista pertencente ao prefeito, nunca mais recebeu o restante do dinheiro emprestado. Hoje, Áurea calcula que tem cerca de R$ 60 mil para receber. ‘‘Eu e meu marido tínhamos o objetivo de comprar um apartamento para que os filhos pudessem estudar fora. Não posso abrir mão dos juros totalmente porque ele usou o nosso dinheiro sei lá para fazer o qu꒒. Todos os denunciantes só possuem como garantia do empréstimo promissórias assinadas por Alcir Pavan. Eles não entraram na Justiça porque temem perder ainda mais dinheiro. ‘‘Se for entrar na Justiça tenho que pagar advogado e o prejuízo será maior’’, alega Áurea.
Para o prefeito Anésio Pavan, as denúncias fazem parte de uma trama política. Em entrevista à Folha, o prefeito pediu para que a reportagem fosse suspensa. ‘‘Pelo menos espera até o mês que vem porque eu e o meu irmão iremos para São Paulo, onde vamos negociar meus recebimentos’’, disse. Pouco à vontade para falar sobre as denúncias, Pavan se contradisse várias vezes. Primeiro afirmou que devia aos moradores da cidade e que iria pagar assim que recebesse dos seus credores. Em seguida declarou: ‘‘Eu, prefeito, não devo nada. Quem deve é a empresa’’. A cerealista Alcapa, segundo o prefeito, petence a ele e ao irmão Alcir Pavan.
Anésio Pavan disse que sabe exatamente quanto deve, mas não revelou o valor. Ele também não explicou onde foi aplicado o dinheiro emprestado. O prefeito aproveitou para acusar os moradores que emprestaram dinheiro à empresa dele, de agiotas. ‘‘Ninguém pode emprestar dinheiro e exigir um juro tão alto. Isso é agiotagem’’.
Pavan disse que chegou a propor a doação de uma fazenda de 204 alqueires no município de Querência do Norte (113 quilômetros de Paranavaí). ‘‘Mas eles (credores) não aceitaram a proposta’’, lamentou. Antes de terminar a entrevista, Pavan disse que é candidato à reeleição e que vai pagar o que deve.

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