Dívida deixa 370 famílias sem água
Os moradores do Residencial Santos Dumont, no Conjunto Ernani Moura Lima (zona leste de Londrina) estão vivendo uma situação dramática. As 371 famílias que moram ali estão sem água há oito dias, desde que a Sanepar retirou o registro por falta de pagamento. Para conseguir água, as famílias estão apelando para parentes, vizinhos e até a um pequeno córrego que passa ao lado do condomínio.
O residencial tem 27 blocos - sendo que apenas 24 ocupados em 80% da sua capacidade - e uma dívida de R$ 62 mil acumulada desde 1995 junto à Sanepar. O condomínio não consegue pagar a conta porque cerca de 160 dos 210 moradores estão inadimplentes com a taxa de condomínio. A menos de um mês, o residencial mudou o sistema interno de fornecimento de água, que cortava a água dos inadimplentes. Porém, segundo a síndica Aparecida Alves de Oliveira, oito dos devedores conseguiram uma liminar na justiça garantindo o abastecimento. Com o encanamento alternativo, a gente estava conseguindo atrair os inadimplentes para acertar suas dívidas. Aí veio esta liminar e ninguém pagou mais nada. Agora está todo mundo sem água, diz.
Segundo a síndica, a situação está insustentável. Há oito dias, ninguém consegue tomar banho, lavar roupas e fazer a higiene dos apartamentos. Temos o caso de uma moradora que estava internada com meningite e não pode voltar para casa nesta situação porque precisa de um ambiente perfeitamente limpo para se recuperar, conta.
Paulo WolfgangImprovisoMaria Aparecida de Oliveira vai buscar água na igreja que frequentaAparecida diz que os moradores estão contando com a boa vontade dos vizinhos e parentes. Até segunda-feira, a gente vinha pegando água numa escola próxima, mas ela começou a ter problemas com a própria caixa dágua e tivemos que parar, explica.
De acordo com a síndica, existem condôminos que não pagam a taxa de condomínio há três anos e que a maior dívida individual chega a R$ 1,6 mil. A taxa deste mês ficou em R$ 56,00. Se a pessoa não tem R$ 50 no bolso que não more em um condomínio. Ninguém aqui é coitadinho. A maioria dos inadimplentes tem carro e telefone celular, afirma. Segundo ela, o maior devedor é a própria Cooperativa Habitacional Bandeirantes (Cohaban) de Londrina, incorporadora do residencial. A Cohaban é responsável por todos os apartamentos vazios e deveria repassar os condomínios referentes a eles, mas nunca pagou nada, explica.
Os moradores estão revoltados com a situação. É o caso da dona de casa Maria Aparecida de Oliveira, que se mudou para o condomínio há cerca de oito meses. Eu vim de São Paulo e estou pensando em voltar para lá. Nunca vi uma coisa destas na minha vida. Temos que ficar dependendo dos outros para poder tomar um banho, fazer uma comida... É um absurdo, é muita humilhação, reclamava enquanto enchia o carro com garrafas para buscar água na igreja que frequenta.
Outra moradora inconformada com a falta de água era a dona de casa Adi Lopes, que está até pensando em se mudar. Eu acho um absurdo esta situação. Meu condomínio está em dia e eu não tenho água nem para lavar roupa. Temos que usar até água mineral para dar descarga se não acho um lugar para pegar. Segundo a moradora, quatro famílias já foram embora do condomínio.
Entre os que estão se virando para conseguir água está Antônio de Souza, que veio morar com a filha no residencial há apenas três meses. Agora de manhã (ontem), eu já carreguei dois baldes enormes e um galão de água que fui buscar na casa de um parente. Agora você imagina, e quem não pode carregar tanto peso? O que é que faz?
Ele ressalta o perigo que a falta de água pode trazer para a saúde dos moradores. Isto aqui está um fedor insuportável porque ninguém pode lavar os corredores, onde muita gente deposita o lixo. Tem muitas crianças pequenas aqui e pode haver uma epidemia por causa da sujeira, diz. Antônio de Souza diz que várias pessoas estão pegando água em um córrego próximo. É uma água suja, fedida, mas vai fazer o que se não tem outra opção, argumenta.
A síndica explica que o advogado do condomínio entrou com 10 ações cautelares na justiça para tentar derrubar a liminar que suspende o corte de água para os inadimplentes. Além disto, vamos fazer uma manifestação no Fórum para expor nossa situação para ver se conseguimos alguma coisa. É inadmissível que a Justiça dê a estes devedores o direito de prejudicar todo mundo, lamenta.
Segundo o gerente metropolitano da Sanepar, Paulo Kishima, não havia outro jeito senão cortar a água do condomínio. Foram feitas várias negociações, demos vários prazos mas, infelizmente, nada foi feito. Existe boa vontade da síndica, a dona Cida tem feito tudo o que pode para arrecadar o dinheiro, para conscientizar as pessoas mas, apesar de todos os esforços, não obteve resultado, explica.
Para Kishima, a medida tomada não está sendo justa para os condôminos que pagam suas taxas em dia, mas a Sanepar não poderia esperar mais e nem teria como interromper o fornecimento de apenas alguns dos usuários de água do residencial. O próprio condomínio tinha conseguido uma saída interessante com os encanamentos alternativos. Nós, infelizmente, não poderíamos fazer o mesmo porque o sistema de fornecimento para um condomínio é único, afirma. Segundo ele, a Sanepar está aberta para novas negociações.
A Folha tentou entrar em contato com a Cohaban mas não obteve retorno das ligações.Paulo WolfgangSituação críticaO condomínio não consegue pagar a conta com a Sanepar porque cerca de 160 dos 210 moradores estão inadimplentesTelma Elorza





