'Dito Preto' , o poliglota, e suas façanhas
Paulo Ubiratan
De Londrina
O chef de cuisine - como faz questão de se apresentar - Be nedito Silveira, 94 anos, o Dito Preto, percorreu o mundo du rante vários anos e veio parar em Londrina. Apesar de, inicialmente, ter ficado na cidade por falta de dinheiro, diz que aprendeu a amar Londrina e hoje não troca este lugar por nada. A desgraça que me ocorreu naquela época (1960) me fez amar esta cidade e seu povo e não ter mais vontade de sai daqui, disse.
Ele já fez de tudo um pouco. Morou na Hungria onde aprendeu a arte da cozinha internacional, trabalhou em oficina de geladeira e entrou para a escola da Marinha onde foi cozinheiro de um navio de guerra. Nessa época, Benedito Silveira, o Dito Preto, como é chamado, acabou conhecendo o armador grego Aristóteles Onassis. De volta à terra firme, ele foi morar no Uruguai. Lá montou um matadouro, ganhou dinheiro e se mudou para Londrina. Aqui, acabou enfrentando algumas decepções. Perdeu suas economias em negócios mal-sucedidos. Hoje, aos 94 anos, sonha com a publicação de um livro, que marcaria seus 100 anos de vida
Levado por um casal de violinistas judeus (a família Fazekas) para a Hungria quando tinha apenas dois meses, viveu naquele país até os 14 anos. Depois, retornou com os pais adotivos para o Brasil. Mas não permaneceu muito tempo no país. Logo saiu para percorrer o mundo.
Em São Paulo, meus pais montaram para o filho legítimo e para mim uma oficina de conserto de geladeira, mas o serviço sujava muito, lembra. Não entendi meus pais brancos. Me deram uma educação esmerada, nos padrões da cultura européia, e depois queriam que eu trabalhasse com óleo. Como eu não quis aquele serviço me mandaram embora.
Dito Preto fala húngaro, francês, espanhol, italiano e entende perfeitamente inglês. Tem exelente conhecimento de história Antiga e do Brasil. Ele afirma não ter mágoa dos pais legítimos nem dos adotivos. Minha mãe me deu para a família húngara porque já tinha 18 filhos e não podia me sustentar. Meus pais húngaros foram legais comigo, me dando conhecimento e abriram minha cabeça para o mundo. Todos eles foram maravilhosos: minha mãe me deu a vida e os húngaros me ensinaram a viver.
Na Hungria, Dito Preto aprendeu confeitaria e cozinha internacional. Foi o que lhe valeu para não passar muitas dificuldades e dar início à sua vida sem família. Sobre sua cor, Dito Preto satiriza, dizendo que na Hungria se sentia peça de museu, pois chamava muita atenção quando saía na rua. No Brasil, todos questionavam: Como um negrão falava igual a estrangeiro.
Ele recorda que, quando saiu para a vida, foi, inicialmente, para Cabreúva (SP), onde nasceu. Lá, causou estranheza até em sua mãe, que já estava doente. Ela morreu dois meses depois. Com 15 anos, Dito Preto ingressou na escola de marinheiros e ficou cinco anos como cozinheiro de navio de guerra.
Depois, foi trabalhar na mesma função na Marinha Mercante, em grandes navios de companhias estrangeiras e nacionais. Foi nesta época que conheceu muita gente importante e os piores patrões de sua vida. O pior deles, afirma, foi o armador grego Aristóteles Onassis.
Dito Preto conta que, no porto de Marselha (França), Onassis pediu a ele e a um comandante italiano para que convocassem os marinheiros. Era para trabalhar num navio petroleiro que havia comprado de um ferro-velho. Além de pagar mal, ele não assinava carteira de trabalho e nem dava seguro para os empregados, afirma. Eu tinha que fazer milagres para dar comida à tripulação. O grego comprava pouco mantimento e os produtos para consumo eram todos de péssima qualidade. Segundo ele, este navio teria sido a primeira embarcação da frota do armador Onassis, que, na época (1946), não era milionário.
Dito Preto disse que os melhores patrões ele encontrou em Londrina: Angelo Caloni, já falecido, proprietário de um dos melhores restaurantes que a cidade conheceu, e Dom Geraldo Majella Agnelo, hoje arcebispo de Salvador e primaz do Brasil. Ele conta que foi uma surpresa ter encontrado Caloni em Londrina. Os dois se conheceram em alto mar, durante o sequestro do navio italiano Conte Grande, que havia saído de Nápole com destino à América Latina.
Caloni estava vindo para o Brasil e Dito Preto era o chef da cozinha do navio. Foi um encontro espetacular, depois de mais 20 anos. Ele logo me convidou para ajudá-lo em seu restaurante, onde acabei ficando uns meses, relata. Com muito orgulho, Dito Preto afirma que Dom Geraldo sempre lhe chamava para cozinhar, quando havia reunião de bispos na cidade. Ele é simples na alimentação, gostava de osso buco cozido e arroz com açafrão.
Quando deixou a vida de marinheiro Dito Preto conta que foi morar no Uruguai onde montou um matadouro e ganhou muito dinheiro. De lá, veio para Londrina onde pretendia comprar café e algodão para exportar. Chegou na cidade com US$ 65 mil e rodeou-se de grandes comerciantes que, segundo diz, pediram dinheiro emprestado com a promessa de fazerem grandes negócios. Nenhum deles pagou a dívida. Até hoje ele guarda, sem mostrar a ninguém, a lista dos devedores cuja maioria já morreu.
A compra de dois cavalos puro sangue inglês, lembra, também ajudou no sumiço dos dólares. Os cavalos estavam magros e não ganharam nenhuma corrida no hipódromo da cidade. O tratador me passava para traz, dando para outros cavalos a ração que eu comprava, afirmou sorrindo.
Dito Preto contou que nesta época foi salvo por Mário Fuganti. O Mário mandou eu entrar na camionete dele e me levou até um galpão onde atualmente está a sede do Iate Clube. Estava tudo caído. No desespero, aceitei o trabalho para arrumar o galpão e fazer funcionar um restaurante especializado em cozinha típica portuguesa.
O restaurante foi vendido a um português e Dito Preto foi trabalhar na cozinha de uma recém-formada empresa de alimentação. Foi nesta época, afirma, que sofreu a maior decepção de sua vida. Dito diz que estava de férias e alguém, por vingança, teria misturado veneno no arroz que seria servido aos funcionários. Dito Preto conta que, por isso, foi demitido e montou, junto com mais dois conhecidos, um boliche na Avenida Rio de Janeiro onde hoje funciona um estacionamento.
Dito Preto disse que por diversas vezes foi chamado em Brasília para fazer comida típicas para banquetes em embaixadas. Isto me cansava muito, não dava dinheiro. Somente dava status, e eu já estava velho para querer somente isto. Ele disse que depois de dois anos vendeu o boliche e passou a trabalhar com vendas, atividade que mantém até hoje.
Ele se vangloria de ter saúde de ferro, apesar de fumar desde os 8 anos e todos os dias tomar meio copo de vodka e duas cervejas. Sua alimentação básica é carne, arroz e feijão. Tenho medo de comer verdura por causa dos vermes.
Ele ficou viúvo três vezes e, com a atual esposa, Angela Roveda, 71 anos, mantém relacionamento há 41 anos. Dito teve 11 filhos, sendo três adotivos. Atualmente moram com ele três netos e uma bisneta. Me julgo um homem feliz. Tive filhos, plantei árvores e agora falta escrever um livro. Este livro, pretendo mandar para o editor no ano 2006, quando eu completar 100 anos, diz sorrindo e cheio de esperança.
PERFIL
Nome: Benedito Silveira
Idade: 94 anos
Profissão: Chef de cuisine
Curiosidade: Falou com o armador grego Aristóteles Onassis
Sonho: Escrever um livro antes de completar 100 anos





