Uma alegria na vida de qualquer avó é ter os netos por perto. A dona-de-casa Ivone França Dal Igna, 56 anos, que mora na frente da carceragem do 2º Distrito Policial, na Zona Leste de Londrina, praticamente não pode mais compartilhar da companhia das netas. É que as crianças têm medo de ficar na casa da avó, especialmente depois que uma bala perdida atingiu o quarto dela, durante tentativa de fuga.
Por isso, a avó Ivone é uma das vizinhas que mais comemorou a remoção dos presos das carceragens dos distritos policiais de Londrina, no início de maio, após a inauguração do Centro de Detenção e Ressocialização (CDR), na Zona Sul. A recém-conquistada tranquilidade, no entanto, ainda não foi suficente para superar o trauma.
''Nunca tinha tomado um susto tão grande. Se estivesse em pé no quarto, a bala teria me acertado'', relata. Mas a filha dela, a demonstradora Marlusa Dal Igna Borges, 33, conta que as crianças ainda sentem os efeitos do medo constante. ''Minhas filhas oram toda a noite pela vovó. A de 5 anos fala que tem medo de bala perdida. Elas ficam apavoradas'', lamenta.
A esperança de Ivone e de outros vizinhos de distritos é que a paz não seja passageira. ''Tomara que a superlotação não volte'', torce a dona-de-casa, que lamenta ainda a desvalorização do imóvel por causa da violência.
Para o empresário Anderson Encinas Gonçalves, 57, que também mora em frente ao 2º DP, a maior vantagem é o movimento menor na rua nos horários de visitas. E o barulho dos parentes dos presos não era a única dor de cabeça. A sujeira deixada pelos visitantes também incomodova.
Por outro lado, a sensação de segurança, na opinião do empresário, é indiferente à presença de detentos na carceragem do 2º DP. O barulho das constantes rebeliões não perturbava mais o sossego do que a movimentação dos parentes nas proximidades.
A casa onde Gonçalves mora há 12 anos, por exemplo, nunca foi assaltada. Consequência, de acordo com o empresário, da movimentação constante de policiais no distrito. ''Mas para quem mora no bairro e não tão perto da delegacia a situação é diferente. Tem locais que a pessoa pode pedir uma pizza ou um remédio que os estabelecimentos se negam a entregar'', comenta.
Mesmo sem nunca ter sofrido um assalto sequer, o empresário não poupa críticas à segurança da cidade. E aponta a causa: policiamento insuficiente. ''Aqui é mais seguro porque sempre tem policiais por perto. Mas é só andar pela cidade que a gente não vê muitos policiais'', acrescentou.
A desocupação também parece não ter influenciado a sensação de segurança do contabilista aposentado Massaro Ishikawa, 71. Com a experiência de quem vive há dez anos ao lado do que já foi considerado um barril de pólvora prestes a explodir, ele lamenta que a violência seja um problema que não escolhe hora ou lugar em Londrina. ''Medo a gente sempre tem. Mas aqui é muito mais sossegado do que muito lugar por aí'', opina.

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