Silvana Leão
De Londrina
Rodeada por uma paisagem preenchida por cafezais e lavouras de trigo em ponto de colheita, a Warta fica perto de toda a infra-estrutura disponível em Londrina
A aparência é de uma cidadezinha de interior, onde todos se conhecem e as crianças brincam livres pelas ruas. Mas a Warta está logo ali, a uns 20 minutos do centro de Londrina, perto de toda a infra-estrutura oferecida pela cidade e rodeada por uma paisagem bucólica, preenchida nesta época por campos de trigo e as tradicionais lavouras de café, uma das bases de sustentação do lugar.
No distrito considerado o mais rico de Londrina sobra tranquilidade e pouco falta aos moradores, segundo eles mesmos dizem. A ausência de uma creche, que já está sendo providenciada, e mais opções de lazer são as poucas reclamações dos moradores, que já se acostumaram a ver a vida passar devagar e sem sobressaltos. Ou pelo menos quase.
Seo João Morinelli (mais conhecido como Nenê), 67 anos, chegou à Warta em 1960 e conta que de uns tempos para cá a calmaria do lugar começou a ser ameaçada. Ele é dono do Bar Pinga Boa, assaltado duas vezes nos últimos tempos. Da primeira, que ele não sabe exatamente quanto tempo faz, a coisa foi feia: três homens armados chegaram a dar tiros dentro do bar. A segunda foi no domingo retrasado, dando um prejuízo de aproximadamente R$ 100,00.
Mesmo assim, a opinião de seo Nenê reflete a da maioria das pessoas que moram no distrito. ‘‘Aqui é bom, todo mundo é amigo.’’ Para ele, que está ali há tanto tempo, as mudanças ocorridas no distrito são bastante visíveis. Ruas asfaltadas, construção de posto de saúde, escola. ‘‘Melhor impossível’’, define, mesmo diante da paradeira da tarde preguiçosa de uma terça-feira.
Nas casas antigas de madeira com suas varandas sombreadas, nas pequenas ruas de paralelepípedo, nos belos e antigos pés de amendoim-bravo que emolduram a Rua Londrina (a principal do distrito), são visíveis os sinais de uma Warta que nasceu e sobreviveu às custas da garra dos pioneiros.
‘‘Não existiam estradas nem pontes sobre os rios Jacutinga e Ribeirão da Saúde. A Rua Londrina era um picadão só e tudo isso aqui era mato.’’ As lembranças são de Antonio Adamo Cebulski, 73 anos, um dos primeiros a chegar ao lugar, no final de junho de 1934, com os pais e mais quatro irmãos. ‘‘Viemos por uma picada, trazendo colchões de capim e os poucos pertences nas costas, até chegarmos ao rancho de palmito.’’
A noite da chegada foi uma amostra das dificuldades que viriam mais tarde. ‘‘Choveu muito e molhou até o fósforo que meu pai havia comprado. Ele teve que ir a pé até o Patrimônio Heimtal para comprar mais um maço.’’ A mãe não se conformava com tanta dificuldade. Em Blumenau (SC), município de origem da família, os Cebulski deixaram uma vida estruturada e com certo conforto. Desilusões políticas lhes traçaram o novo destino.
Seo Antonio conta que quando chegaram, o lugarejo se chamava Nova Wlast e os poucos moradores eram tchecoslováquios. Não demorou para que a maioria desistisse de tantas dificuldades e fosse embora. Os Cebulski, porém, persistiram, junto com outras famílias de poloneses. Eduardo, pai de seo Antonio, foi quem pediu a mudança de nome do lugarejo. Warta é também a denominação do local onde ele havia nascido, na Polônia.
O chefe dos Cebulski também foi o responsável pela instalação da primeira escola da Warta. Diante da dificuldade de estudar os filhos, ele providenciou a vinda de uma professora de Curitiba, que hospedou-se gratuitamente na casa da família durante um ano. Mais tarde o mesmo aconteceu com uma professora de Londrina.
Vários anos se passaram até que o lugarejo se tornasse um distrito de fato, o que aconteceu só em 14 de dezembro de 1953. Na definição de seo Antonio, a família ‘‘comeu o pão que o diabo amassou com as botas’’. A exemplo de seo Nenê, o dono do bar, ele acha que hoje o distrito é um ótimo lugar. ‘‘Vivemos bem e não temos do que nos queixar.’’

WARTA
Onde fica: Região norte de Londrina
Atrativo: restaurantes
População: cerca de 1,3 mil habitantes
Característica: uma cidade no meio do campo

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