A Polícia Civil de Alvorada do Sul (68 km ao norte de Londrina) ouviu ontem, em inquérito, o sem-terra Valter Vasselik, 18 anos, acusado de tentar matar no sábado um dos líderes do acampamento da Fazenda Ingá, Vilson da Silva Pereira. Vasselik atirou nas costas de Pereira com uma pistola 765, de alto poder de fogo, dentro do acampamento. A causa seria uma antiga rixa por lotes de terra que agora estão sendo divididos pelos acampados.
Segundo o delegado designado de Alvorada do Sul, Jaime Toledo, Vasselik se apresentou com um advogado. No depoimento ele alegou que na sexta-feira passava perto da casa de Pereira, quando ia para a casa dele, e com medo teria atirado no outro sem-terra. ‘‘Ele disse que temia pela vida, pois Pereira estava com uma faca, limpando as unhas’’, comentou Toledo.
A bala ficou alojada perto do coração de Pereira, que foi internado no Hospital Universitário de Londrina. Apesar do ferimento, Pereira recebeu alta ontem e deve retornar esta semana para o acampamento. Após o tiro, Vasselik fugiu do acampamento. O delegado informou que a família Vasselik está na Fazenda Ingá desde a ocupação, em outubro de 91. Já Pereira está na área há pouco mais de um ano.
Das famílias que participaram da primeira ocupação, poucas ficaram no acampamento, entre elas, a Vasselik. Pereira faz parte de um novo grupo de sem-terra que chegou há pouco mais de três anos na área, vindo do Sudoeste do Paraná. O grupo assumiu a coordenação da área e transformou os trabalhos em sistema cooperativo, dividindo as atividades e a produção.
Dias depois da ocupação da fazenda de cerca de 400 alqueires em outubro de 91, o juiz da Comarca de Bela Vista do Paraíso concedeu reintegração de posse da área, que deixou de ser cumprida pelo governo do Estado. Em seguida o governo Federal declarou a propriedade de interesse para a reforma agrária. Os sete herdeiros de Pedro Alves Filho e Jorge Zugaib, proprietários da área, brigam na Justiça pela posse da fazenda. Atualmente, cerca de 60 famílias vivem e trabalham em sistema cooperativo - divididos em grupos com até 8 famílias - na Fazenda Ingá.
Um dos coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), José Damasceno, negou que a tentativa de homicídio tivesse sido provocada por disputa de terra. Ele afirmou que os lotes ainda estão sendo traçados por topógrafos do MST. ‘‘Quando este trabalho for concluído, se houver mudanças no traçado dos lotes, isso será realizado com as famílias. A briga foi motivada por rixa antiga entre eles’’, afirmou.
Para ele, a Fazenda Ingá passa pela fase de pré-assentamento, o que dá liberdade para as famílias de entrar e sair livremente da área. ‘‘A gente não tem mais controle sobre as famílias. Se alguém se armar, é responsabilidade dele. No entanto, este garoto não é ocupante da área, mas sim, a família dele. Isso que aconteceu foi um fato isolado e lamentável’’, ressaltou, dizendo que não há divergências entre os acampados.

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