'Disfarçar a voz é tarefa muito difícil'
Disfarçar a voz é tarefa muito difícil
Uma madame da alta sociedade carioca foi obrigada a desembolsar alguns milhares de reais por crime contra a honra, depois de passar vários dias imitando flatos ao telefone. A madame ligava para uma ex-amiga, transformada em desafeto, e ficava minutos seguidos emitindo com a boca sons de flatulências.
No começo, a ex-amiga falava alguma coisa e batia o telefone. Já suspeitava de quem se tratava. Mas como a história se repetia todos os dias, várias vezes por dia, ela começou a gravar os telefonemas. Depois de algumas semanas, juntou as fitas e procurou um advogado. Se isso tivesse ocorrido há 10 anos, estas fitas não teriam o menor valor e não provariam coisa nenhuma.
Mas, desta vez, o advogado, um criminalista conhecido no Rio de Janeiro, procurou o Laboratório de Fonética Forense da Unicamp. Foi engraçado. Ficamos horas por aqui analisando aqueles falsos peidos até conseguirmos obter um espectrograma seguro da voz da mulher. Depois, comparamos com sua voz natural, obtida em outra gravação e não teve erro. Era ela mesmo. Foi condenada por crime contra a honra e pagou um dinheiro considerável como indenização para a ex-amiga, lembra Molina.
Segundo ele, é muito difícil um indivíduo disfarçar a voz sem deixar traços que permitam sua identificação. Em mais de uma ocasião ele foi chamado às pressas para identificar vozes de sequestradores que se comunicavam por telefone para pedir o resgate. Isso acontece quando a polícia tem alguns suspeitos em vista. Então, enquanto as negociações estão sendo realizadas, a gente analisa a voz que pede o resgate e a compara com outras gravações das vozes dos suspeitos, explica.
Pelo menos duas vezes este trabalho permitiu que a polícia localizasse o cativeiro e prendesse os sequestradores antes do pagamento do resgate. Disfarçar a voz é uma coisa tão difícil que algumas pessoas se traem exatamente quando tentam fazê-lo, conta.
Um destes casos aconteceu com um empresário carioca que forjou o próprio sequestro na tentativa de conseguir dinheiro extra para seus negócios que iam mal. Os grandes empresários no Rio de Janeiro criaram uma espécie de consórcio, um fundo comum, onde cada um contribui com certa quantia mensal para a eventualidade de um deles ser sequestrado, diz.
O empresário pretendia obter dinheiro deste fundo com a encenação do próprio sequestro. Só que para negociar o resgate, era obrigado a falar até com a mulher. Na tentativa de disfarçar a voz, ele colocava um cartão de crédito entre os dentes. Mas sua voz ficava tão ininteligível que as negociações tinham que se arrastar por mais de dois minutos, tempo suficiente para a polícia localizar o ponto da ligação. Assim, ele foi pego com a boca na botija, ou melhor, com a boca no cartão, no momento em que fazia uma destas ligações, lembra.
Molina é capaz de ficar horas seguidas desfiando histórias deste tipo: um pastor que se insinua pelo telefone a uma de suas fiéis; vereadores e fiscais corruptos em dezenas de cidades brasileiras; adultérios e assim por diante. Enfim, a consolidação da fonética forense abriu um novo campo de investigação científica para a Polícia e para a Justiça, conclui. (P.S.M.)





