Discípulo de Navarro contesta suas teses sobre o vírus da Aids
Discípulo de Navarro contesta
suas teses sobre o vírus da Aids
Navarro diz que HIV não
existe e que a Aids só
acometeria pessoas
com eu fraco
Luis Lomba
Com o texto Aids e Análise Caracterial, o psicoteraupeuta carioca José Ignacio Xavier espera recolocar no lugar as relações entre as teorias de Wilhelm Reich, que colocou o corpo no centro da psicoterapia, e a síndrome que vem matando milhares neste final de milênio. Segundo Xavier, o estudo foi motivado pelas declarações do também psicoterapeuta Fernando Navarro na Folha, domingo dia 3 de maio. Entre outras temeridades, Navarro diz que o vírus da Aids não existe e que a síndrome só se manifestaria em pessoas com um eu fraco. Isto é muito perigoso, pois qualquer pessoa que leia ou ouça falar isso pode achar que tem o eu forte e ajudar a espalhar ainda mais o vírus HIV, o que é inadmissível, irrita-se Xavier.
Wilhelm Reich foi um psicanalista da segunda geração, fiel ao Freud dos textos até Mais Além do Princípio Prazer (1920), quando o pai da psicanálise ainda acreditava que as manifestações neuróticas seriam decorrentes da insatisfação sexual. A partir de 1920, Freud estabeleceu o conceito de instinto de morte biologicamente inato, que seria o causador dos distúrbios mentais. Para Reich, o instinto de morte seria apenas a distorção do desejo sexual não realizado (não algo biologicamente determinado), que geraria comportamentos como frieza nas relações afetivas e a troca do amor pelo poder. Reich afirmava que a cada tipo de personalidade corresponde uma atitude corporal. Quando o corpo é tocado, desencadearia reações emocionais que possibilitariam ao paciente identificar e mudar o que lhe incomoda em sua personalidade.
O mestre alemão não chegou a desenvolver uma metodologia para suas idéias (morreu louco em 1957, no Maine, EUA), o que só foi feito na década de 70 por Navarro. Este é o maior mérito dele e é sobre isso que deveria estar falando nos jornais, diz Xavier.
Sabemos que há uma relação entre o curso da Aids e a estrutura da personalidade da pessoa, diz Xavier. Daí a afirmar que pessoas com eu forte não se contaminariam se expostas a vírus, são outros quinhentos. Pessoas com personalidades precariamente estruturadas, sem base numa experiência sólida, mais caóticas, são mais frágeis física e psicologicamente e estão mais expostas a situações de risco, sendo capazes, por exemplo, de compartilhar uma seringa se forem viciadas em drogas injetáveis.
José Ignacio Xavier se formou com Fernando Navarro e deixou seu grupo em 1994. Esse grupo reichiano era muito calcado na autoridade pessoal do mestre. No congresso realizado em Curitiba (na semana retrasada), muitas apresentações apontaram para uma nova etapa, com a possibilidade de se desenvolver as idéias de Reich de forma crítica, afirma.





