Diretor enfrenta acusações de racismo e maus-tratos
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quarta-feira, 01 de outubro de 1997
Célia Baroni Londrina 
Milton DóriaDiretor negaEdno dos Santos: Acusações partem de pessoas magoadas ou que têm interesse político em me acusar Racismo, perseguição, maus-tratos, desvio de merenda escolar, desrespeito a alunos, a funcionários e a mães de alunos. Essas são as principais acusações contra o diretor da Escola Estadual Adélia Dionísio Barbosa, no conjunto Parigot de Souza (zona norte), Edno Mariano dos Santos. Ele nega as acusações e diz que elas partem de pessoas magoadas porque ele não teria atendido reivindicações delas.
São pessoas que perderam o emprego ou têm interesse político em me acusar. Vou aguardar a decisão e avaliação do Núcleo Regional de Ensino, disse Edno Santos.
As reclamações contra o diretor que chegaram ao Núcleo geraram sindicâncias que, segundo a chefe do órgão, Genoveva Bellucci, já estão em fase final. Ela avisa, no entanto, que muitas das pessoas que foram até o Núcleo reclamar contra o diretor não quiseram formalizar suas denúncias. Para estes casos não foi possível abrir sindicância.
Genoveva Bellucci informou ainda que uma comissão já fez as averiguações e encaminhou os documentos ao departamento jurídico da Secretaria Estadual de Educação. Se o departamento jurídico entender que as denúncias são procedentes, será instaurada uma sindicância judicial, responsável por definir se haverá ou não punição.
Mas os ex-funcionários sustentam as acusações e, cansados de esperar pelo fim das várias sindicâncias - uma delas aberta no ano passado - decidiram procurar a Justiça comum. É o caso da faxineira Cleusa Mota dos Santos, 40 anos. Ela acusa Santos de tê-la demitido por preconceito racial e de perseguição. Fui maltratada várias vezes e xingada por causa da cor da minha pele. Cheguei a perder várias oportunidades de emprego porque ele descobria onde eu estava, passando más referências sobre mim.
Ela conta que trabalha para o Estado há dois anos e foi transferida, a seu pedido, para a escola Adélia Dionísio Barbosa no início de 96. Cleusa Santos mora perto da escola. Ele tratava todo mundo como cachorro, xingando os alunos e até pais de alunos com palavras que nem gosto de repetir.
Cleusa observou que o preconceito racial contra ela só ficou evidente no dia de sua demissão. Ele me chamou em frente ao Conselho de Professores e da APM, me dando a demissão. Falou que eu era uma negra incompetente. Ela afirma ter procurado o Núcleo Regional, na época, para denunciar o ocorrido e foi orientada a procurar seus direitos. Cleusa procurou então o advogado Gerson da Silva e chegou a ter uma audiência com o promotor de Defesa dos Direitos Constitucionais, Paulo Tavares.
Na ocasião, o diretor Edno dos Santos também foi ouvido e, segundo o advogado, recebeu uma advertência do promotor. Até o início de outubro, Gerson da Silva deve entrar com uma ação indenizatória contra Edno dos Santos.
Cleusa tem testemunhas dos maus-tratos sofridos. Entre elas, Emília Gomes da Silva, 47 anos, que trabalhou na escola como auxiliar administrativa, até o final do ano passado. Ela confirma que o diretor Edno dos Santos abusava do poder, humilhando os outros usando palavras de baixo calão. Segundo ela, o diretor se referia a Cleusa por negra suja.
Emília da Silva acusa ainda o diretor de desvio de merenda escolar. Responsável pela planilha da merenda, ela garante que todos os ingredientes eram enviados pontualmente pela Prefeitura mas desapareciam do depósito. A denúncia é confirmada por Cleusa, que trabalhou na cozinha da escola. Emília conta que frequentemente era obrigada a reformular o cardápio da merenda porque o produto que deveria estar na dispensa não estava mais. Os alimentos, complementa Cleusa, eram retirados sistematicamente da dispensa com destino não sabido.
A economia, garantem as duas ex-funcionárias, era feita às custas dos alunos. Elas dizem que qualquer desobediência ou algazarra era motivo para o diretor suspender a merenda dos estudantes. Os alunos do horário intermediário eram os que mais sofriam. No sábado eles estudavam de manhã e, apesar da merenda estar prevista, o diretor nunca liberou o lanche, diz Emília.
Emília da Silva trabalhou mais de quatro anos na escola e também diz ter sido vítima dos desmandos do diretor. Demitida como insuficiente para o serviço, ela foi aprovada em concurso do Estado e hoje trabalha na Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Ela contou que, na época, procurou o Núcleo, onde foi orientada a redigir um ofício com as denúncias contra Santos. Mas quando cheguei na escola ele me chamou afirmando que era amigo da chefe do Núcleo e não adiantava eu reclamar.
Emília diz ainda que, daquele momento em diante, ficou proibida de falar com os colegas e teve de cumprir seu aviso prévio na biblioteca, isolada. Outra ex-funcionária preferiu não se identificar por medo de ser prejudicada no atual emprego. Mas informou que entrou com ação na Justiça comum contra Edno dos Santos, por ter sido submetida a maus-tratos e desrespeito.
A ex-funcionária da escola contou que foi perseguida e teve de pedir demissão. Ele não tem respeito por ninguém. Não importava quem fosse, ele chamava de biscate, galinha e outras palavras de baixo calão. Segundo a ex-funcionária informou à Folha, Edno dos Santos responde a pelo menos outros dois processos, sob mesma acusação.


