Lino Ramos
De Londrina
O ex-secretário municipal de Fazenda de Londrina, Ismael Mologni, disse ontem que parte dos recursos obtidos com a venda de 45% das ações ordinárias da Sercomtel foi usada para cobrir o déficit mensal da prefeitura de Londrina, que chegava até R$ 4 milhões mensais. Mologni, que atualmente é diretor da Sercomtel Celular, prestou depoimento ontem à Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Câmara, instaurada em 17 de dezembro para investigar denúncias de irregularidades em diversos setores da prefeitura.
Mologni, porém, não explicou para onde foi o restante do dinheiro proveniente da venda das ações para a Companhia Paranaense de Energia (Copel). De acordo com o vice-presidente da CEI, Célio Guergoletto (PMDB), o ex-secretário alegou que tinha uma função técnica e não discutia a liberação de recursos, pois recebia ordens da secretaria de governo e do prefeito Antonio Belinati (PFL). ‘‘Os decretos, as licitações, vinham prontas da secretaria de governo. Também tinham autorização do prefeito Antonio Belinati. Não queremos pensar que o prefeito desconhecia os pedidos grandes’’, disse Guergoletto, ao comentar as declarações de Mologni. O vice-presidente da CEI informou que hoje a comissão deve receber da prefeitura a documentação do Conselho de Gestão Fiscal (Cogefi), criado para administrar os recursos sobre a venda da Sercomtel. Ele espera que essa documentação mostre como a administração municipal gastou os R$ 186 milhões pagos pela Copel.
Ismael Mologni evitou a imprensa e seu advogado, Omar Baddauy, afirmou que ‘‘por dever de ética profissional’’ não iria debater o contéudo do depoimento de seu cliente. Questionado pela Folha, garantiu que os pagamentos autorizados pelo ex- secretário foram dentro da lei e que Mologni respondeu todos os questionamentos feitos pelos vereadores. ‘‘Ele (Mologni) está orientado por mim a não prestar nenhuma declaração para não ser objeto de exploração’’, explicou.
O vereador Tercílio Turini (PSDB), membro da comissão, dispõe de vários balancetes mensais da prefeitura revelando liberações milionárias dos recursos sobre a venda da Sercomtel. Em maio de 98, quando as ações foram vendidas, a prefeitura dispunha de R$ 126 milhões e naquele mês foram liberados R$ 34,582 milhões. As saídas continuaram sendo feitas mensalmente e outra quantia alta ocorreu em julho de 98, quando R$ 12,577 milhões deixaram os cofres da prefeitura. Em setembro do mesmo ano houve a liberação de mais R$ 12,426 milhões. Pelas contas de Turini, em 31 de dezembro de 98 a prefeitura dispunha de R$ 55 milhões dos recursos iniciais e no mês de outubro deste ano, quando a Câmara recebeu o último balancete da prefeitura, os recurso disponíveis chegavam a R$ 5,706 milhões.
Turini lembrou que esse cálculo não levou em conta os juros obtidos com os recursos, que poderiam chegar a R$ 20 milhões. Pela lei municipal 7.352 de abril de 98, o dinheiro sobre a venda da Sercomtel seria administrado por um conselho formado pelo prefeito e os secretários de Fazenda, Governo, o presidente da Sercomtel e o procurador jurídico do município, que deveriam se reunir quinzenalmente. ‘‘O Mologni disse que nesse período (oito meses) o conselho não se reuniu nenhuma vez’’, finalizou Turini.Ex-secretário Ismael Mologni disse à CEI que liberação seguia ordens superiores; déficit mensal era de R$ 4 milhões
Paulo WolfgangIsmael Mologni, Omar Baddauy e o vereador Tercílio Turini durante depoimento na Câmara: CEI espera documento do Cogefi que esclareça destino do dinheiro da venda das ações da Sercomtel

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