''Minha mãe teve uma morte tranquila. Quando sentimos que lhe restavam poucas horas de vida, ela se despediu de toda a família no quarto. Quem tinha alguma mágoa conversou e resolveu. Foi melhor assim. Não queria receber o telefonema de um hospital de uma hora para outra, dizendo que ela já havia morrido.''
O depoimento da londrinense Maria Helena Balbino dos Santos Daesiol, 37 anos, ilustra um comportamento bastante comum até meados do século passado: o de morrer em casa. O caso relatado, contudo, é recente. Dona Alexandrina, mãe de Maria Helena, faleceu de câncer aos 70 anos, no dia 31 de julho de 2004, em sua residência no Jardim Interlagos (Zona Leste de Londrina). No auge da doença, foi questionada se preferia ir para um hospital. ''Ela não quis'', lembra a filha.
A escolha chama a atenção nos dias de hoje - em que a medicina oferece tecnologia para prolongar a vida e o homem ocidental tem repulsa à morte -, mas não é isolada. O óbito em domicílio encontra apoio entre médicos e chega a ser encarado como sucesso em certos programas da área de saúde. Em Londrina, só no ano passado, 69 pessoas morreram em suas residências por escolha própria ou dos familiares, sob os cuidados do Sistema de Internação Domiciliar (SID), vinculado à Secretaria Municipal de Saúde. Dona Alexandrina era uma delas. Outros 21 óbitos domiciliares foram registrados no Atendimento Domiciliar (DOM) da Unimed, quase o dobro de 2003 (12 óbitos). Em 1999, quando o serviço particular foi implantado, foram apenas três.
''Há uma tendência cada vez maior de as famílias escolherem ficar próximas dos pacientes terminais, em casa. Isso permite que eles vivam seus últimos dias com dignidade e deixem espaço nos hospitais para aqueles que realmente necessitam'', afirma o promotor de Direitos e Garantias Constitucionais e da Saúde de Londrina, Paulo Tavares. Além do conforto espiritual da família, o coordenador do Núcleo de Qualidade em Saúde da Unimed, Ivan Pozzi, ressalta que os pacientes que procuram a internação domiciliar querem fugir dos riscos de infecção hospitalar.
Apesar dessa tendência, a institucionalização da morte domiciliar ainda engatinha no Brasil. O serviço da Unimed, por exemplo, só existe em três municípios do Paraná. Na rede pública, Londrina é o único município paranaense que possui um programa do gênero, de acordo com a Secretaria de Estado de Saúde. O coordenador do SID, Luis Fernando Rodrigues, diz que o Ministério da Saúde já mostrou disposição em implantar um serviço semelhante ao de Londrina em todo o País, mas que por enquanto não há nada em âmbito federal.
Prova de que o assunto ainda é tabu é que, mesmo dentro de Londrina, onde o SID foi implantado em 1996 e serviu inclusive de referência para outros municípios brasileiros, a internação domiciliar ainda é desconhecida ou confundida pela maioria das pessoas. O programa nada tem a ver com o Saúde da Família (PSF). É destinado a casos mais delicados, como quadros pós-derrame ou doentes de câncer e Aids em estágio terminal. A pessoa atendida pelo SID tem como leito a própria cama, mas fica cercada de equipamentos e procedimentos hospitalares. Só no ano passado, o programa recebeu 282 novos pacientes.
''Nosso objetivo é que os pacientes tenham alta por melhora ou que morram com a gente (em casa), nos casos em que não há mais o que fazer. O que tentamos evitar ao máximo é que eles tenham que voltar para os hospitais'', diz o coordenador. Presidente do Núcleo de Estudos em Cuidados Paliativos de Londrina, o Palliare, Rodrigues faz parte de uma corrente mundial que defende o tratamento médico mais humano, visando aliviar o sofrimento físico e espiritual do doente terminal, mais do que prolongar a vida a qualquer custo.
Para Rodrigues, é inevitável ligar a discussão sobre a morte domiciliar com a questão da superlotação nos hospitais. ''Eu fico arrepiado quando leio notícias dizendo que 'faltam leitos nos hospitais'. Será que faltam leitos ou faltam cuidados paliativos para que parte desses pacientes seja tratada em casa?'', questiona. Ele diz ter ficado indignado com a reação do senador Artur Virgílio (PSDB), que classificou de ''nazista'' a proposta do ministro da Saúde de restringir o acesso às UTIs, divulgada no início de abril. A discussão foi engavetada, mas para Rodrigues, continua válida. ''Temos que parar de esconder a morte nas UTIs'', sentencia.

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