Difícil manter as boas maneiras
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quarta-feira, 11 de setembro de 2002
Walter Ogama 
O dia é de folga do trabalho, apesar de ser uma quarta. Bem que ele gostaria de aproveitar a rara oportunidade de ócio no meio da semana para gastar os minutos esquentando a cadeira de uma lanchonete, na área central de Londrina, onde o que se vê neste final de inverno com cara de verão é de encher os olhos e o coração: meninas, esportivamente vestidas, cada uma desfilando pelo Calcadão central uma beleza mais destacada. Os olhos de uma, o nariz de outra, os lábios da mulata, os cabelos da morena.
Ficou, porém, na vontade. Folga de meio da semana é para pagar conta de banco, pesquisar preço de eletrodoméstico, consertar o varal da cortina do quarto e trocar a borrachinha da torneira da cozinha, aquela que há três semanas só deixa de pingar fechando com alicate.
Então ele subiu a pé até o centro de Londrina, pouco depois do almoço, porque a manhã foi gasta para assistir qualquer bobagenzinha na tevê. Preferiu a Avenida Rio de Janeiro, longa, movimentada, barulhenta. E quente, o que lembrou sorvete, comprado num carrinheiro. Mais que ser consumido, o produto se derreteu, tamanho o calor.
E ele se percebeu, logo acima da Avenida JK, um homem andando devagar, com um papel na mão. A boa educação não permitia que ele jogasse a embalagem do sorvete na rua, embora papéis e outros lixos estivessem por ali, aos montes, principalmente no pé das árvores.
Subiu procurando por lixeiras, lembrando ter lido reportagem de jornal mostrando que Londrina dispunha de poucos recipientes desses instalados nas calçadas centrais. Continuou subindo e chegou ao quarteirão entre a Rua Paraná e a Rua Piauí, onde jogou o papel do sorvete numa caçamba, colocada ao lado do Bosque para o depósito de entulhos de obras.
Tirou a prova dos nove. Ele se viu personagens daquela reportagem, que transitando por outras ruas centrais de Londrina também andaram boas quantidades de passos em busca de uma lixeira. E se imaginou uma criança, com o bolso cheio de balas, sem ter onde depositar os embrulhos e ainda levando bronca dos pais quando, por descuido, flagrada jogando lixo no chão.
Chegando à porta da agência bancária falando sozinho e sendo observado pelos populares com curiosidade:
O que essas autoridades fazem com a gente? Para onde vão os nossos impostos se nem nas lixeiras eles são colocados?


